SOBRE O DIA 8 DE MARÇO

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Escrever sobre o Dia Internacional da Mulher é sempre uma tarefa complicada. Não por falta de inspiração, mas, porque estou contaminado culturalmente por clichês que mais reforçam comportamentos que deveriam ser combatidos, não só no dia 8 de março, mas, também nos outros 364 dias do ano.

Então, a melhor coisa que posso fazer pela causa é não atrapalhá-la, escrevendo um monte de baboseiras temperadas por um machismo que existe independentemente de querer ou não.

Portanto, neste primeiro momento, deixarei o plural de lado e vou falar apenas de uma mulher: minha mãe.

E não farei isso usando esses blá blá blás que costumo ver por aí durante este mês. Vou escrever sobre ela porque já faz um tempo que desejo homenageá-la e achei que este seria um bom momento para isso.

Minha mãe, apesar de ter passado por maus bocados na infância sendo criada apenas pela minha vó, nunca vestiu a armadura de “mulher guerreira”. Enfrentou as dificuldades que apareciam porque não havia outra opção. Continue lendo

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SOBRE CARNAVAL E BIG BROTHER BRASIL

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Carnaval é uma data bem contraditória, onde os puritanos cultuam o sexo sem medo de julgamentos e os machões homofóbicos botam para fora seus instintos reprimidos, vestindo vestidos e babydolls. Tudo, é claro, em nome da alegria.

Passei muito tempo tendo a obrigação de não gostar dessa data. Reclamava pelo simples fato de reclamar, apenas para assumir o papel de ser o “do contra” na situação. Esse também era o mesmo comportamento diante de novelas e Big Brother Brasil.

Acredito que acontece com a gente, de uma forma bem sutil, um fenômeno semelhante ao que assisti no filme Forminha Z, quando decidem desde cedo o papel que cada um irá desempenhar dentro do formigueiro.

Também acontece isso em nossas relações sociais. Ainda na nossa infância, vem alguém – ou um grupo – e define o que seremos para o resto da vida. E no meu caso, fui rotulado como o “cara inteligente”.  Continue lendo

SOBRE LIMITES, INCLUSIVE NO HUMOR

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Recebi uma sugestão para escrever sobre o limite do humor. Achei um tema bem inusitado, mas, gostei da ideia.

Como não sou um humorista, não me sinto no direito de interferir nas diretrizes da profissão dizendo o que é certo ou errado nela. Então, de uma forma bem despretensiosa, acredito que toda piada é válida, contanto que faça alguém rir.

Porém, como cidadão me pauto pelas leis do país – e aqui não me refiro apenas ao humor – logo, um crime, antes de qualquer outra coisa, sempre será um crime.

Mas, então, esse seria o limite de uma piada?

Tomando como base o sentido literal da palavra, ainda acredito que não. Afinal, se a legislação servisse de limite para todo mundo não teríamos tantos crimes por aí… Continue lendo

NÃO SOU UM CIDADÃO DE BEM

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Independentemente do ano que se inicia, as manchetes dos jornais são sempre as mesmas. Dietas milagrosas, atrizes que vão à praia “fora de forma” e affairs de celebridades. Basta alguns minutos assistindo a programação matinal das três principais emissoras de televisão aberta do país para ter certeza de que estamos longe de alcançar uma maturidade cultural.

Quando vejo o programa da Ana Maria Braga reservar todo o seu tempo para falar sobre bunda, usando a expressão “preferência nacional” para se referir a essa parte do corpo feminino, a vontade que tenho – também influenciado pelo calor desses últimos dias – é de me congelar por algumas centenas de anos, na esperança de que a consciência humana lá no futuro esteja melhor do que agora.

A situação por aqui está tão estranha que conceitos como “hipocrisia” ou “ironia” se tornam obsoletos para descrevê-la. É muita falta de noção para ser descrita por uma palavra só. Continue lendo

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SOBRE A TÃO DISTANTE “LIBERDADE DE EXPRESSÃO”

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“Liberdade de expressão” ultimamente se tornou uma expressão bem presente nos noticiários, logicamente devido aos atentados contra a sede da revista Charlie Hebdo, em Paris.

Desde então, após uma comoção geral por causa da violência das imagens registradas do atentado, surgiu a campanha “Eu sou Charlie” com manifestações em várias partes do mundo, inclusive aqui no Brasil.

Veja bem, um país que acabou de passar por um processo eleitoral bastante desgastante por causa das agressões gratuitas entre militâncias partidárias que não respeitavam opiniões contrárias, agora se simpatiza com a dor do jornal anarquista.

Seria irônico se não fosse deprimente. Continue lendo

AZUL É DE MENINO, ROSA DE MENINA

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Fila é uma coisa engraçada. Seja no banco, banheiro ou para pegar o ônibus é sempre um bom momento para se observar o comportamento humano. Identificando aquela pessoa mais estressada, ou aquela que trapaceia entrando disfarçadamente na frente de outra que se distraiu por alguns instantes ou, até mesmo, aquela que está cheia de carência afetiva e aproveita um simples contato visual para se aproximar contando histórias de sua vida inteira para a pessoa mais próxima.

E passando por uma dessas filas da vida, ouvi um diálogo que me fez refletir sobre o nível da nossa evolução como humanidade.

Às vezes, a praticidade que as redes sociais nos oferecem para filtrarmos o que pode ou não aparecer em nosso feed de notícias, pode gerar uma sensação ilusória de estarmos no caminho certo. Criamos nosso pequeno universo individual que nos isola de uma realidade bem mais indigesta do que desejávamos.

Quando presenciei tal conversa, foi como se tivessem me arrancado de minha bolha confortável para me aplicarem sessões de choque de realidade.

Antes de continuar com minhas reflexões, transcrevo a seguir o diálogo entre os dois amigos:

– Rapaz, acho que não te contei, mas, finalmente encontrei uma escola boa para meu filho!

– Sério? Que legal!

– Pois é. Essa escola já ensina desde cedo o que é de menino e o que é de menina.

– Nossa, graças a Deus! Hoje em dia esse povo não se importa mais com nada, então é importante reconhecer quem ainda respeita os valores da família.

– Isso mesmo.  Veja o absurdo que eu ouvi lá do Galois, na primeira reunião com os pais a professora já veio com uma conversa de que não haveria festas de dia dos pais ou das mães, mas, um único evento para celebrar o dia da família. Dizendo ela, que o objetivo era de nenhum aluno se sentir excluído dos eventos.

– Que frescura! É por isso que esse país tá essa bagunça danada. Essa pouca vergonha que vemos em cada esquina. (Nesse exato momento comecei a olhar ao redor na esperança de encontrar alguma orgia, mas, só vi uma senhora vendendo enfeites de Natal).

– Por isso estou te falando que agora sim encontrei uma escola boa de verdade. Ontem fui tomar sorvete com meu filho e ele recusou a colherzinha que a balconista lhe ofereceu porque era cor de rosa. Ele disse bem assim: “Troca para mim, tia. Essa aqui é de menina.

– Oh que benção! Tão bonitinho. Pena que nem todos são assim. Continue lendo

SIM, AS MANIFESTAÇÕES SE REFLETIRAM NAS ELEIÇÕES

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Engraçado como antes mesmo do fim da apuração dos votos destas eleições, alguns eleitores do Aécio começaram a bombardear as redes sociais com imagens alusivas às manifestações de junho de 2013 menosprezando, ofendendo e até responsabilizando os manifestantes pela reeleição da Dilma.

Pode-se falar muita coisa sobre aquele movimento. Que não tinha pauta definida, que era desorganizado, que era formado por vândalos, ou então que era realmente apenas por causa dos 20 centavos. Para todas essas afirmativas, e mais algumas outras, é possível argumentar em um nível respeitável de debate. Entretanto, relacionar as manifestações à imagem de Dilma ou de Aécio é, no mínimo, um grande equívoco político.

Primeiro, a quantidade de pessoas que foram às ruas, embora significativa, não chega a 3% do eleitorado brasileiro. Portanto, caro leitor, não foram eles que decidiram as eleições a favor ou contra o seu candidato. Por conjecturas apenas, acredito que seria mais provável usá-las para justificar o desempenho de Luciana Genro no primeiro turno, quase 2% dos votos válidos, do que relacioná-las com a vitória de Dilma.

Acontece que a culpa do Aécio não ter sido eleito não é dos manifestantes, não é de Dilma e, nem mesmo, de Marina Silva. Mas, do próprio candidato que, em quatro anos de senado, teve um desempenho comparado ao do deputado Tiririca. Que, embora levantasse como bandeira de campanha seu trabalho em Minas Gerais, obteve duas derrotas significativas no estado. Continue lendo