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Archive for the ‘Contos’ Category

A DISTRAÍDA

distraída

 

A distraída entra pela porta da loja de acessórios para celular, apressada e desorientada. Sem fazer rodeios pergunta ao atendente sobre o paradeiro de outro funcionário demonstrando ter amizade com ele:

– Onde está o Juliano? – pergunta esbaforida.

– Está no horário de almoço, senhora. Só retorna às quatorze horas. – responde o funcionário.

– É que eu comprei um cabo USB aqui, está lembrando? – indaga a mulher como se já tivesse certeza que a resposta seria positiva.

– Desculpe, senhora. Mas, como são muitos clientes por dia, não consigo me lembrar agora. Que dia foi feita a compra?

– Há umas três semanas, mais ou menos.

– Mas, em que posso ajudá-la? – perguntou o atendente solícito por obrigação.

– O cabo parou de funcionar, tem como trocá-lo?

– Claro. A senhora está com ele aí? E a nota fiscal?

– Precisa da nota?

– Sim. Da nota e do cabo.

– Do cabo também?!

– Sim, senhora. Precisamos do cabo para trocá-lo.

– Eu deixei o cabo lá em casa, mas, acho que deixei a notinha em algum lugar aqui dentro da minha bolsa.

– Entendo. Mas, a senhora pode procurar com calma e voltar aqui com os dois que nós trocaremos o cabo.

– Posso sentar aqui nessa cadeira para procurar essa notinha? Tenho certeza que ela está por aqui… – perguntou a distraída já se sentando na cadeira da loja.

O vendedor da loja não respondeu, mas, balançou a cabeça afirmativamente.

A mulher remexia a bolsa e retirava uma quantidade significativa de pequenos papéis dobrados lá de dentro.

– E depois ainda dizem que nós mulheres organizamos nossas bolsas. – comentou a distraída, rindo da própria piada.

O atendente não riu.

– E o Juliano, está por aqui? – questionou sem tirar os olhos da bolsa. Continue lendo

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O DIA EM QUE O BRASIL FEZ UMA TEMPESTADE EM COPO D`ÁGUA

tempestade em copo dagua

Claudiney Brasil gosta de reunir a família na sala para assistir ao Jornal Nacional, pois sabe que um homem bem informadotem mais chances de alcançar sucesso na vida. Também bate uma bolinha todo sábado com os amigos, afinal o sedentarismo é coisa de gente preguiçosa. E Claudiney Brasil tem pena de gente preguiçosa.

Nos finais de semana, após o futebol, Claudiney bebe uma ou duas cervejinhas, afinal, ninguém é de ferro, não é mesmo?

Há anos esse foi o roteiro de sua vida, até a manhã daquele fatídico dia em que Claudiney Brasil precisou sacar dinheiro para comprar um novo Xbox para seu filho. Normalmente pagaria com o cartão de crédito, porém a banca da feira, que ofertava o console por quase metade do preço anunciado por uma conhecida loja de eletrônicos, aceitava apenas pagamento à vista.

“O preço é menor porque é sem impostos, por isso tem que ser a vista.” Justificava o vendedor e Claudiney Brasil maldizia o país que lhe servia de pátria e sobrenome. “Melhor pagar à vista do que dar dinheiro para esse presidente ladrão.” Concluía assim sua lamentação.

No caminho para o banco, lembrou que o garoto não ia nada bem na escola, porém, assistira na televisão alguém falando sobre jogos de videogame que ajudavam significativamente no desempenho escolar das crianças. Naquele instante, Claudiney teve um insight e soube como melhorar as notas do filho, afinal, de uma coisa sempre teve certeza: não há criança mais esperta do que aquele moleque. O problema das notas baixas deveria ser culpa dos professores, que só pensam em aumento de salário e não se preocupam em ensinar direito os filhos dos outros.

Na agência bancária, ficou nervoso por ter que enfrentar uma fila, mas, finalmente, depois de quinze minutos, chegou sua vez de usar o caixa eletrônico. E Claudiney Brasil ficou atônito ao ler a mensagem que apareceu no monitor ao inserir seu cartão na leitora: “cartão inválido”.

Mas que absurdo! Claudiney Brasil, além de indignado, estava ofendido. Como assim “inválido”? Aquilo não tinha o menor cabimento.

Repetiu a operação mais algumas vezes e o resultado foi sempre o mesmo. Claudiney resmungou um palavrão qualquer, esboçou esmurrar a máquina, mas, por ser um cidadão civilizado, se virou e procurou algum atendente para auxiliá-lo: Continue lendo

XÍCARA CHEIA, CONVERSA VAZIA

xicara de cafe

– E aí, você pegou a Aninha? – pergunta o colega de trabalho que acaba de entrar na copa onde o colega aguardava seu café ficar pronto.

– O que? – questiona o outro um pouco confuso.

– A Aninha. Aquela estagiária do segundo andar. – esclarece.

– O que tem ela?

– Você pegou?

– Não. Claro que não! Como assim?! – se espanta o colega que aguarda o café ficar pronto.

– Ué, ontem você não deu carona para ela? – pergunta novamente o colega curioso com ar de dúvida.

– Sim. Mas, isso não quer dizer nada.

– Ah… vai dizer que ela não é gostosa? – insiste com tom de desconfiança.

– Claro que ela é bonita. Mas, não rola.

– Duvido.

– De que?

– Que você não pegou a Aninha.

– Não peguei. – respondeu com intenção de encerrar a conversa.

– Que vacilo.

Segundos em silêncio, que foram interrompidos pelo colega que insistia no assunto.

– Se fosse comigo, eu pegaria fácil, fácil.

Depois de um gole de café, o colega de trabalho, que deu a carona para a estagiária, perguntou segurando o riso:

– Quer dizer que você que toda mulher que entra no seu carro, você tem que pegar?

– Claro!- respondeu o outro com seriedade.

– E se ela não estiver afim?

– Ah tá… Deixa de ser ingênuo, rapaz!

Não houve pergunta, mas, percebendo a expressão de curiosidade do colega que segurava o copo de café, resolveu complementar seu raciocínio.  Continue lendo

Categorias:Contos, Crônicas Tags:

DONA IRENE NÃO É RACISTA

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Dona Irene não é racista. Ela respeita todas as diferenças e acredita que no Brasil não há raças, mas apenas uma única mistura de todas as cores e crenças. Porém, ela nunca contratou uma garota loira de olhos azuis para limpar sua casa.

“Tão bonitinha assim deveria estar estudando.” Assim pensa dona Irene.

Dona Irene tem consciência social, mas, não é racista.

Em sua casa, não há uma empregada doméstica. Mas, uma “quase membro da família” que até janta junto com todo mundo.

Dona Irene detesta o termo “empregada doméstica” e por isso não assina a carteira de ninguém.

Dona Irene não é racista, mas uma pessoa boa. Ela salvou uma jovem da miséria, que por coincidência era negra.

Pagou uma passagem de ônibus para a garota sair do Piauí e ir morar em sua casa na cidade grande.

Dona Irene pensou em pagar uma passagem de avião, mas concluiu que a garota devia ter medo de voar.

Doa Irene tem um bom coração, só não é racista.

Dona Irene deu um novo lar para essa garota, incentivou que continuasse seus estudos no turno noturno da escola pública mais próxima de sua casa e ainda a deixa comer de tudo que quiser do armário. Continue lendo

TOMAR BANHO É UM PROBLEMA

shower

Ele passou os dedos por entre os cabelos molhados enquanto a água quente caia do chuveiro, escorrendo e encharcando todo o seu corpo nu.

Enquanto a água realizava todo o seu trabalho antes de morrer no ralo, ele pensava.

Pensou na fatura do seu cartão de crédito.

Pensou que, segundo as suas contas, não teria dinheiro suficiente para pagar o total de sua fatura.

Então pensou que poderia pagar o valor mínimo agora e no mês que vem pagaria o restante.

Lembrou que horas antes seu chefe havia lhe jogado uma indireta que o deixou constrangido na frente de seus colegas.

Pensou que se tivesse feito o relatório com mais dedicação, seu chefe não lhe chamaria a atenção.

Mas, se o seu salário fosse maior, ele renderia mais no trabalho.

Imaginou que poderia ter respondido isso para o seu chefe: “Quer um relatório melhor? Me pague mais.”

Teve a certeza que essa seria a melhor resposta possível, porém lembrou que ficou calado.

Ficou com raiva por ter ficado calado.

Lembrou que se pagar apenas o mínimo do cartão, no mês que vem o banco cobrará mais juros na fatura.

Mais uma vez percebeu que aquela era a resposta perfeita para o seu chefe. Com um aumento teria como pagar a fatura do seu cartão.

Olhou para o sabonete coberto de espuma.  Continue lendo

PRIMEIRO AMOR

casal

O coração dentro do peito batia ao ritmo de uma escola de samba. O suor frio encharcava a palma de sua mão e provocava-lhe calafrios, arrepiando os delicados pelos dos braços e da nuca. Regina estava apaixonada e embriagada pelo clímax que precedia o primeiro beijo.

Seus olhos fechados não viram que os dele estavam abertos. Aquele momento tinha que ser perfeito. Regina acreditou nessa sentença.

Um dia foram jantar juntos e ele não conversou muito com ela. Regina iniciava diversos assuntos, mas o companheiro devolvia poucas palavras. A moça de pele branca e rosada desferia o olhar mais apaixonado que seus olhos verdes podiam produzir.

Mas, o olhar que vinha do homem sentado em sua frente era vazio e percorria todos os cantos do estabelecimento, menos o rosto de sua companheira. Regina acreditou que aquele comportamento era resultado de um dia cansativo no trabalho.

No dia dos namorados, Regina acordou cedo para colocar em prática o que havia planejado durante um mês inteiro. Escreveu dezenas de bilhetes carinhosos e os escondeu pelos cômodos da casa dele. Encomendou uma cesta de café da manhã e enviou para o escritório onde seu amado trabalhava. Por fim, para atender ao pedido dele, comprou uma camisa oficial do time para o qual ele torcia.

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E-MAILS DE UM JOVEM ESCRITOR

digi

22 de junho, às 10:24.

De: Jorge Coelho

Para: Editora Renomada

Assunto: Publicação de livro

Olá, tudo bem?

Eu escrevi um romance intitulado “A viagem de um Mago”. Onde relato momentos que vivi ao lado do meu tio (o mago) quando viajamos para Machu Picchu, no Peru.

O livro mostra os ensinamentos que ele me passou durante nossa aventura. É um romance que engloba esoterismo, misticismo, espiritualidade e filosofia. Um verdadeiro manual sobre a alma humana.

Enfim, pesquisei diversas editoras, mas, o meu desejo é publicar com vocês.

Como posso enviar meu original?

 ***

26 de junho, às 15:48.

De: Editora Renomada

Para: Jorge Coelho

Assunto: Re: Publicação de livro

Caro Sr. Jorge Coelho,

Nossa Editora está muito honrada com o seu desejo de publicar seu livro conosco.

Pedimos para que no próximo contato você nos encaminhe o original da sua obra para que possamos dar início aos procedimentos de publicação.

Você pode encaminhá-lo por e-mail (formato word ou pdf) ou então mandar uma cópia para a nossa sede. O endereço e o CEP você encontra no formulário em anexo.

Um abraço para você e outro para o seu tio Paulo.

Atenciosamente,

Henrique de Macedo – Diretor Executivo da Editora Renomada

***

26 de junho, às 19:37.

De: Jorge Coelho

Para: Editora Renomada

Assunto: Re:Re: Publicação de livro

Nossa, fiquei contente com o profissionalismo de vocês!

Não esperava que me respondessem tão rápido assim… Ainda mais por eu ser um jovem escritor, sendo este o meu primeiro livro a ser publicado.

Bom, essa qualidade no atendimento só mostra que escolhi bem a editora para publicar meu livro!!!

O original completo segue em anexo.

Tenho apenas uma observação para fazer, o nome do meu tio é Antônio, não Paulo.

Att,

Jorge Coelho.

***

12 de julho, às 13:55.

De: Editora Renomada

Para: Jorge Coelho

Assunto:Re:Re:Re: Publicação de livro

Sr. Jorge, pedimos desculpas pelo nosso equívoco. Confundimos o nome do seu tio com o de outra pessoa. Isso não irá se repetir.

Informamos que recebemos o seu original e já o encaminhamos para o setor responsável para fazer a leitura analítica da obra para ver se enquadra no selo da nossa Editora.

Nossa editora trabalha com um número limitado de autores publicados, portanto, não garantimos que sua obra seja publicada.

Caso seu original seja aprovado entraremos em contato em até 12 (doze) meses para lhe informar o orçamento.

Atenciosamente,

Juliana Andrade – Assistente de Produção

***

12 de julho, às 17:29.

De: Jorge Coelho

Para: Editora Renomada

Assunto: Dúvida sobre publicação de livro

Olá Henrique/ Juliana.

Não precisam se desculpar… Eu sei que vocês devem ter muito trabalho por aí, então é normal confundirem um nome ou outro de vez em quando.

Bom, não ficou muito clara a questão da publicação do meu livro. Achei que já estava tudo certo, mas, parece que ainda será avaliado, né?

Outro ponto que não entendi foi sobre a referência ao “orçamento”. Não imaginei que tivesse que pagar pela publicação. Na verdade, achei que os livros seriam distribuídos para livraras e não para mim.

Sabe o que acontece? É que não tenho muito tempo para ficar vendendo meus exemplares…

Abraço,

Jorge Coelho.

 ***

19 de julho, às 9:28.

De: Jorge Coelho

Para: Editora Renomada

Assunto: Enc: Dúvida sobre publicação de livro

Olá… Andei pensando e acho que consigo vender meus exemplares. Conversei com alguns amigos e constatei que se juntar meus colegas de trabalho, faculdade, escola, vizinhos, familiares, amigos dos familiares e todos os meus amigos do facebook, consigo vender pelo menos uns 1000 exemplares.

Legal, né? E aí, aquele orçamento já está pronto?

Estou ansioso para começarmos com a divulgação.

Att,

Jorge Coelho

  ***

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