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QUANDO O “MAS” É UM PROBLEMA

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Além dos evidentes transtornos causados pela crise política e econômica que nos aflige, ainda tem aquelas pessoas que se aproveitam dessa situação e colocam para fora suas atitudes mais repugnantes, como se pudessem justificá-las com os erros alheios. Assim, pioram significativamente o cenário, afinal, me dói menos o preço da gasolina ou dos produtos do mercado, do que conviver diariamente com pessoas ignorantes.

Essas ações não podem ser taxadas como consequências do insucesso de um governo ou de um time de futebol, por exemplo. Mas, como fruto da própria índole de cada um.

Há poucos dias, presenciei um episódio que ilustra bem o que quero dizer. Enquanto estava prestes a entrar em um evento, cinco rapazes chegaram por fora com intuito de passarem na frente de todos que aguardavam na fila. Ao serem repreendidos, um deles ficou irritado e soltou a seguinte frase: “Rapaz, em um país bosta como este, vou enfrentar fila para quê?!”

Repare que, para estar ali, a pessoa teve que comprar um ingresso de, no mínimo, oitenta reais. Logo, aparentemente, não dá para pensar que eram vítimas que tiveram suas vidas devastadas com as sanções econômicas adotadas pelo governo.

Ou seja, o cara corta a fila porque ele não liga para ninguém além dele.

Não muito diferente desse raciocínio idiota, são aqueles que pensam que podem fazer justiça amarrando ladrões em um poste e espancando-os até a morte. Nesse caso, quem bate não é tão diferente daquele que está amarrado, ambos se satisfazem com o sangue alheio. São assassinos sádicos que tentam jogar a responsabilidade de seus atos para o mais distante possível. Geralmente, usam a figura do “governo” para isso.

Mas, quem é o governo? É uma pessoa? É um ser?

Não dá para saber qual é o conceito dessas pessoas, pois, ao tentar manter uma breve conversa com esse tipo, logo vem à tona um mar de desconhecimento das leis do país. Então, quando percebem isso, começam a culpar o próprio país, entretanto, desconhecem mais ainda as leis das nações que tanto elogiam na hora de fazer comparações infundadas.

É como se tudo que eles aprenderam na vida viesse das telas de cinema e, assim, um roteiro hollywoodiano faz mais sentido do que a qualquer Constituição Federal.

O maior problema nisso tudo é que a falta de atribuições de responsabilidades, gera uma onda de incoerências e contradições, fazendo com que muita gente adote diversos discursos, conforme a conveniência de cada momento.

Eu sei que, em muitas vezes, essa pluaridade de opiniões vem de uma tentativa de evitar generalizar ou radicalizar determinadas afirmações. Entretanto, em alguns casos, a ponderação e o excesso de prudência fazem com que dois pensamentos antagônicos podem apareçam em uma mesma frase.

Geralmente, isso ocorre quando não queremos assumir as consequências por uma posição que é considerada agressiva ou impraticável pelo resto da sociedade. Assim, adotamos o discurso que sabemos ser o correto, mas, deixamos escapar algumas faíscas dos nossos sentimentos mais sombrios.

Como se fosse uma espécie de “eufemismo social”.

O instrumento mais utilizado por essas pessoas que fazem parte desse curioso fenômeno é o uso da preposição “mas”: “Eu não sou racista, mas…”, “eu não sou homofóbico, mas…”, “acho que empregadas domésticas tem direitos, mas…”.

E no lugar dessas reticências aparecem os mais absurdos tipos de preconceitos.

O caso da jornalista do JN é um bom exemplo disso. As pessoas comentaram uma porção de ofensas raciais, mas, não aceitam que tenham cometido um crime. Afinal, era apenas uma piada. Uma brincadeira inocente. É como se dissessem: “Eu não sou racista, mas, tenho um senso de humor ácido”.

Dessa forma, criamos uma situação onde não conseguimos mensurar, de fato, o nível de intolerância em que vivemos. Um cenário que me faz lembrar de um episódio do início da minha vida escolar:

Quando eu era criança, minha professora de Ciências falou que devemos escovar os dentes três vezes ao dia. Portanto, na hora de fazer as provas bimestrais, eu sabia a resposta correta para esse tipo de pergunta, embora, na prática, eu escovava apenas uma vez pela manhã.

Ou seja, desde cedo eu percebi que se falasse a verdade em público, muitos fariam cara de nojo e me chamariam de porco. Porém, se eu falasse aquilo que eles queriam ouvir, não haveria nenhuma recriminação.

O que era mais fácil, mentir ou mudar meus hábitos?

Talvez, se eu fosse sincero, minha professora teria feito um trabalho de conscientização, mostrando realmente a importância de cuidar bem dos meus dentes.

Não me agradaria conviver com uma pessoa racista, porém, a partir do momento em que ela se assumisse como tal, ficaria mais fácil encontrar alternativas para lidar com esse problema.

Mas, optamos sempre pelo caminho mais fácil.

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