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SOBRE CADEADOS E AMOR

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Uma notícia bastante comentada foi a retirada dos cadeados da Pont des Arts, em Paris. Para muitos, foi o triste fim de um dos símbolos mais emblemáticos do romantismo entre casais do mundo inteiro.

Mas, para outros, não passa de um monte de cadeados pendurados em uma grade.

Quando o assunto é paixão, acho válida qualquer demonstração de carinho e afeto. Seja da forma que fizeram na ponte, ou com uma foto polaroid, ou cravando as iniciais dentro de um coraçãozinho no tronco de uma árvore. Tudo bem, eu sei que é cafona. Mas, é um gesto bonitinho… (escrevi isso lembrando do comentário de Renato Russo antes de cantar Hoje a Noite Não Tem Luar, no CD acústico).

Enfim, não quero entrar no debate sobre o que é brega ou não no amor. Até mesmo, porque não vejo sentindo debater algo tão superficial, em se tratando de um sentimento tão amplo e complexo como esse.

O problema, em minha opinião, é o objeto utilizado pelos franceses: o cadeado.

Sinceramente, não creio que o primeiro casal que teve essa ideia queria mostrar que estavam trancados um ao outro. Provavelmente, foi apenas uma questão de oportunismo. Aquela era a forma mais prática de se pendurar algo em uma grade e a mais resistente contra a ação de vândalos ou fenômenos da natureza.

Entretanto, apesar da boa intenção inicial, a moda pegou e agora fica difícil não fazer a relação “cadeado x propriedade”. É aí que mora o perigo.

Esse negócio de se achar dono do outro é algo que me incomoda bastante. Nesse caso, parece que as coisas ultrapassam os limites das relações interpessoais.

Não vejo com bons olhos quando alguém quer interferir na essência de outro ser, em nome de qualquer sentimento que seja. Acho isso agressivo.

Há quem defenda a ideia de que até em uma relação opressora, o oprimido tem o direito de escolher permanecer ou não naquela situação. O que levaria a crer que um abuso poderia continuar acontecendo, caso o abusado não reclamasse.

Eu compreendo os argumentos da defesa, porém, não consigo concordar com isso.

Basta tirar o foco de uma situação específica e ampliar a visão para analisar um contexto bem maior, do ponto de vista histórico, para perceber que ser vítima não é uma questão de opção.

E quando nos sentimos donos de alguém, nos achamos no direito de exigir da pessoa algo que é de nosso interesse e não, necessariamente, do dela. Ficamos no papel dos opressores, usando o amor como justificativa de ações arbitrárias.

Quando, no momento em que não concordamos com algo, bastaria terminar a relação e partir para outra.

Quem nos deu o direito de decidir o que é certo, para “consertar” a atitude do outro?

É evidente que ao se relacionar com alguém, estamos dispostos a fazer concessões e abrir mão de determinados caprichos, porém, tudo em nome da boa convivência. Só que isso deveria acontecer de forma voluntária e não por meio de cobranças, exigências e chantagens.

Essas atitudes não integram um relacionamento saudável.

Além disso, a frustração é diretamente proporcional ao tamanho da expectativa que depositamos em alguém.

Logo, é extremamente arriscado colocar a sua felicidade em função das atitudes de outras pessoas. Algo tão importante assim deveria ficar apenas sob o seu – e só seu – controle.

A traição em um relacionamento é justamente quando alguém deixa de cumprir algo que foi previamente acertado entre as partes.

Portanto, quanto mais “exigente” você for, maiores as suas chances de ser traído. Ainda mais se você estiver cobrando algo que a pessoa não é capaz de cumprir.

E, veja bem, é tudo uma questão de conceitos. Da mesma forma que se envolver com outra pessoa pode ser algo inaceitável entre a maioria dos casais, para outros, assistir sozinho ao novo episódio da série favorita do casal, sem esperar a companhia do outro, pode ter o mesmo peso.

Para exemplificar, vou chamar as pessoas que vivem na primeira situação (aquelas que se importam mais com a exclusividade do companheiro) de universo A e as da segunda (aquelas que se importam mais com a companhia) de universo B, obviamente. E, a partir daí, posso fazer algumas considerações.

Primeiramente, é possível encontrar gente feliz vivendo em A ou em B. Fato.

Geralmente, quem mora em B não entende os habitantes de A, frequentemente duvidando de sua existência. E vice-versa.

Apesar das evidentes diferenças de comportamentos, ainda assim, é possível manter um relacionamento feliz entre pessoas dos dois universos. Porém, nesse caso, é claro que precisarão de muito tato e a sutileza de quem desarma bombas, para contornar conflitos que podem jogar tudo para o ar. Cortar o fio errado pode ser fatal.

Agora, o que não dá é você, sendo de um, conhecer alguém do outro e querer arrastá-lo para o seu mundo.

Além de ser um gesto egoísta, esse é o principal caminho que leva direto para um mar de decepções. É sacanagem exigir que o outro mude para te agradar, faz mal para os dois.

E o cadeado, de certa forma, contribui para esse equívoco quando transmite uma ideia errada de que se está “trancado” a alguém que parece ser a única pessoa capaz de trazer felicidade.

E aí, envolvido pela ilusão de um relacionamento tóxico, joga a chave fora, aceita as frustrações cada vez mais recorrentes e perde a chance de se soltar das correntes que te prendem em um quarto escuro.

O maravilhoso detalhe nisso tudo é que não existem apenas dois universos A e B. Eles são tantos que todas as letras do alfabeto ainda não seriam suficientes para representá-los.

Portanto, cultive o amor e seja brega à vontade, mas, esqueça dos cadeados. Permita-se passear livremente, sem amarras, pelos mais diversos tipos de mundos, até se encontrar naquele que mais combina com seu estilo de vida.

E, só então, comece a pensar nos outros.

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