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SOBRE O ÓDIO QUE SENTEM

O ódio

Acho engraçado como as pessoas acreditam que o fato de não fazer alguma coisa já é relevante o suficiente para cumprir seu papel na sociedade. Hoje, no trânsito para o trabalho, vi um carro com um adesivo dizendo: “A culpa não é minha. Eu votei no Aécio”.

Muito estranho a pessoa declarar abertamente o voto em alguém que também recebeu dinheiro de todas as empreiteiras envolvidas na Operação Lava Jato. Minha dúvida é se ela acredita que, no caso do senador tucano, os empresários doaram milhões de reais por amor ou se, simplesmente, ficou aliviada de seu candidato não ter sido eleito e, consequentemente, a bomba explodir no colo de outros político corrupto.

Enfim, o fato é que o motorista do carro em questão, usou o acostamento para cortar um pequeno trecho do engarrafamento. E aí eu me pergunto: qual será essa tal “culpa” a qual ele se refere?

Se for pelo fato de algumas dezenas de pessoas terem ficado milionárias de forma ilícita, neste caso, realmente ele não é culpado. Entretanto, se a intenção era falar da situação caótica que o país enfrenta, aí, meu caro, o indivíduo errou feio. Errou rude.

Percebo que atualmente vivemos em estado de ódio. Algumas pessoas atacam pelo simples fato de atacar. Xingam, humilham, desdenham e criticam tudo que vai contra suas convicções. E, como crianças birrentas, fecham os punhos e os olhos para bater em qualquer coisa que aparecer pela frente, muitas vezes, não enxergando as próprias falhas.

Montam-se no cavalinho da arrogância e saem galopando cheias de prepotência para bem longe de qualquer auto avaliação.

Um grande equívoco para uma sociedade que ainda está longe de atingir o amadurecimento cultural é justamente a insistência em alimentar um ódio incoerente e irracional, reforçando estereótipos e reafirmando o discurso do opressor sobre o oprimido.

Fico assustado quando vejo que “família tradicional” e “cidadão de bem” são termos bastantes recorrentes nos discursos dos mais revoltados. Já falei um pouco sobre isso em outro texto do quão difícil é aplicar esses conceitos em um mundo moderno. São ideias obsoletas que reprimem grande parte da sociedade.

É importante a compreensão de que o ódio surge justamente quando se considera existir algo ou alguém inferior a você.

Há algum tempo deixei de me declarar uma pessoa religiosa. Depois dessa decisão, passei a ouvir o que as outras pessoas me dizem sem ficar imaginando que todas elas iriam para o inferno só por não compartilharem do meu credo. Não digo que todas as pessoas religiosas fazem isso, porém, tenho certeza de que não era uma exclusividade minha.

Onde quero chegar é que hoje, do lado de fora, quando observo o comportamento de alguns fiéis, me questiono se ainda pregam o amor ao próximo no cristianismo.

É, incrivelmente, comum me deparar com pessoas, de diversas religiões, que defendem a pena de morte para os “vagabundos”, quando estes eram justamente a oportunidade de colocar o tal do perdão em prática.

Um bom exemplo disso foi aquele caso do primeiro brasileiro executado na Indonésia. Cheguei a encontrar, no Facebook, quem comemorou a morte do cara pela manhã e, à tarde, encheu a minha timeline de versículos bíblicos.

Acredito que ninguém faça isso de forma consciente. Digo isso apenas para exemplificar como o ódio gratuito leva as pessoas a agirem de forma incoerente e, às vezes, afirmando coisas que colocam em xeque toda uma base religiosa.

Portanto, de que adianta colocar toda sua fúria para fora e bater panelas na janela de casa protestando contra o governo, mas, estacionar em fila dupla na hora de deixar seu filho na escola? O argumento de que “são só 5 minutinhos”, provavelmente, é bem parecido com o do diretor de uma estatal que recebeu uma bolada de dinheiro pela primeira vez afirmando que seria a única.

Da mesma forma, qual o objetivo de condenar o beijo gay da novela, quando você é um péssimo companheiro para a pessoa com quem se relaciona?

As respostas para essas questões estão carregadas de argumentos vazios que só servem para potencializar o sentimento de raiva contra alguma coisa, e bem distantes de qualquer conclusão racional.

O atual cenário político do país está uma droga. Mas, a convivência aqui já não é boa há muito tempo.

Por motivos óbvios, não votei no Aécio e não consigo imaginar um cenário onde isso seria possível. Porém, minha culpa não está relacionada ao meu exercício democrático.

Sou culpado quando me nego a aceitar a ideologia do outro e o excluo daquele grupo definido de pessoas que merecem o meu respeito. Como se eu fosse soberano o suficiente para decidir quem é digno ou não de conviver comigo. Tenho culpa quando refuto qualquer opinião antes mesmo de ouvir a argumentação. E, logicamente, também é minha responsabilidade quando cuspo intolerância para todos os cantos sem me preocupar se posso acertar alguém que está do meu lado.

O ódio é sempre o caminho mais fácil. Ele é o acostamento durante o engarrafamento.

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