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SOBRE O DIA 8 DE MARÇO

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Escrever sobre o Dia Internacional da Mulher é sempre uma tarefa complicada. Não por falta de inspiração, mas, porque estou contaminado culturalmente por clichês que mais reforçam comportamentos que deveriam ser combatidos, não só no dia 8 de março, mas, também nos outros 364 dias do ano.

Então, a melhor coisa que posso fazer pela causa é não atrapalhá-la, escrevendo um monte de baboseiras temperadas por um machismo que existe independentemente de querer ou não.

Portanto, neste primeiro momento, deixarei o plural de lado e vou falar apenas de uma mulher: minha mãe.

E não farei isso usando esses blá blá blás que costumo ver por aí durante este mês. Vou escrever sobre ela porque já faz um tempo que desejo homenageá-la e achei que este seria um bom momento para isso.

Minha mãe, apesar de ter passado por maus bocados na infância sendo criada apenas pela minha vó, nunca vestiu a armadura de “mulher guerreira”. Enfrentou as dificuldades que apareciam porque não havia outra opção.

Cresceu sem a presença paterna e, portanto, jamais teve a obrigação de atender qualquer vontade masculina. E foi essa a ideia que passou para seus filhos.

Uma mulher independente que, de todos os rótulos possíveis, só aceitou um. O de mãe coruja. Ou, como ela prefere falar, “mãe galinha” que faz de tudo para proteger seus pintinhos. Às vezes, ultrapassando os limites compreendidos pela racionalidade humana.

Certa vez, enquanto ainda estudava, o professor do último horário prolongou sua aula por alguns minutos. O suficiente para que eu me atrasasse e perdesse o ônibus que estava habituado a pegar todos os dias.

Em uma época em que crianças de 10 anos não tinham celulares, minha mãe ficou louca (literalmente!) com minha demora para chegar. E foi me esperar na parada (como se isso fosse adiantar alguma coisa). Quando finalmente cheguei, a primeira coisa que ela fez foi brigar comigo. A segunda, foi perguntar o que aconteceu.

O detalhe mais cômico dessa cena toda é que quando chegamos em casa, eu morto de fome e já cansado de dar explicações, ela percebeu que, no desespero da situação, havia trancado o cadeado do portão e deixado a chave ao lado do telefone na mesinha da sala.

Ficamos rindo, sentados na calçada, enquanto um vizinho pulava o muro para resgatar nossa chave.

Ou seja, ela é uma pessoa com adjetivos que vão muito além dos tradicionais que aparecem nas propagandas de televisão neste mês de março. Tem características que, talvez, poderiam ser mal recebidas por outros filhos, mas, para mim são provas de amor. Algo que considero como verdadeiras tatuagens sentimentais, que ficarão gravadas em mim para o resto dos meus dias.

É um amor recíproco. Por isso, neste dia Internacional das Mulheres, fiz questão de lembrar da minha linda, louca, histérica e querida mãe. Por achar que ela não se prende ao modelo superficial que pregam por aí.

E, apesar de ter recebido uma criação onde eu e minhas irmãs tinham as mesmas obrigações domésticas, sem aquele discurso de “coisas de meninas e meninos”, ainda não me vejo com capacidade e, muito menos, autoridade para escrever sobre as mulheres, de uma forma geral, neste 8 de março.

Sou um homem em uma sociedade machista. E o fato de evitar, ao máximo, reproduzir comportamentos que reforçam essa mazela social, não é um motivo para me sentir parte integrante do grupo que luta por igualdade de gêneros. Essa causa não pode ser minha, pois, em nenhum momento fui prejudicado, ou, senti na pele o preconceito e a discriminação.

Procuro, diariamente, fugir do papel de opressor por crer que seja uma questão de humanidade, da mesma forma que abomino o nazismo mesmo não sendo judeu.

Eu, como homem que sou, não faço a menor ideia de como são as dificuldades enfrentadas por uma mulher. Não tive que passar pelo constrangimento de ir ao ginecologista pela primeira vez. Ao contrário, posso até deixar de cuidar da minha saúde sob o pretexto de ter medo de hospital, e isso não será nenhum absurdo. Ainda vai ter gente me achando um fofo por demonstrar minha fraqueza.

Meu medo de aranhas não significa que sou histérico, mas, que tenho aracnofobia. Ninguém vai sair por aí dizendo que eu preciso de um homem em casa para me proteger desses pequenos seres horripilantes. No máximo, vão me indicar um psicólogo para tratar do meu trauma.

A sociedade não me avalia como “gostoso” ou não. O que é um alívio, afinal, com os meus 157 centímetros de altura e adepto do sedentarismo como modo de vida, tenho certeza que não seria alvo das cantadas das mulheres pelas ruas.

Com isso, provavelmente entraria em depressão ou passaria a frequentar diariamente uma academia. Tudo em busca de um assovio enquanto caminho até a padaria.

Seria muito angustiante ter que abrir mão de ler meus livros, jogar videogame ou deixar de comer frituras só para entrar num determinado padrão de beleza que ninguém sabe ao certo como e quando foi estipulado.

Considero a data extremamente importante para a história, entretanto, não acredito que esteja relacionada à felicitações ou outros mimos.

Acho que um homem, em posse de todo seu charme galanteador, parabenizar as mulheres com uma flor é tão irônico quanto um torturador entregar um copo de água para o torturado durante o intervalo entre as sessões de tortura.

Minha mãe me ensinou que devo me desculpar quando cometo erro e que o pior defeito do ser humano é a arrogância, que faz a pessoa enxergar o errado como se fosse o certo.

Sendo assim, nada de “parabéns”. Deixo aqui meu pedido de desculpas por todas as vezes que não consegui evitar minha canalhice inerente e desrespeitei não só ela, mas, todas as mulheres de uma forma geral.

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