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NÃO SOU UM CIDADÃO DE BEM

peter griffin

 

Independentemente do ano que se inicia, as manchetes dos jornais são sempre as mesmas. Dietas milagrosas, atrizes que vão à praia “fora de forma” e affairs de celebridades. Basta alguns minutos assistindo a programação matinal das três principais emissoras de televisão aberta do país para ter certeza de que estamos longe de alcançar uma maturidade cultural.

Quando vejo o programa da Ana Maria Braga reservar todo o seu tempo para falar sobre bunda, usando a expressão “preferência nacional” para se referir a essa parte do corpo feminino, a vontade que tenho – também influenciado pelo calor desses últimos dias – é de me congelar por algumas centenas de anos, na esperança de que a consciência humana lá no futuro esteja melhor do que agora.

A situação por aqui está tão estranha que conceitos como “hipocrisia” ou “ironia” se tornam obsoletos para descrevê-la. É muita falta de noção para ser descrita por uma palavra só.

Vejo pessoas relativizarem um ataque terrorista porque consideraram uma charge ofensiva. Também, aceitaram um fuzilamento de um traficante, sem questionar se há ou não alguém puro o suficiente para condenar o outro a morte.

Sem levar em consideração os preceitos religiosos que servem de bengala para a maioria dessas pessoas, me pergunto se nunca houve, corrupção no governo da Indonésia. O mesmo governo que se diz íntegro a ponto de matar traficantes de drogas, é o exemplo que deve ser seguido pelo resto do mundo? Um governo com tamanho poder, poderá ser questionado pelos governados?

Existe também outro gênero, conhecidos como “cidadão de bem”, que se acha no direito de pedir a morte alheia. Ninguém sabe ao certo como eles surgem na natureza, porém, são conhecidos por seu comportamento agressivo.

As respostas de algumas perguntas ajudariam a conhecer melhor essa espécie que vem se multiplicando de forma descontrolada. O que define ser um cidadão de bem? Ele pode ultrapassar pelo acostamento para não se atrasar no trabalho? E ter um caso com colega de trabalho, pode? Ele está autorizado a “modificar” algumas informações na declaração do imposto de renda para receber uma restituição maior? E se ficar bêbado até não saber mais porque está rindo, o exclui desse conceito?

Esses são só alguns exemplos. Mas, será que realmente existe um cidadão de bem? Ou não passa de um sentimento de momento? Ou é apenas uma expressão usada para justificar o ódio contra a sociedade?

Não sei. A minha única certeza é que eu não pertenço a esse grupo. E nem faço questão. Na verdade, deve ser um saco ser bonzinho o tempo todo.

Gosto de contrariar, argumentar e, claro, me expressar. E as pessoas precisam ter a consciência de que ter opinião já é algo ofensivo para alguém. Portanto, é sempre bom lembrar que quando você coloca um bife em seu prato na hora de almoço, está menosprezando a crença de um país inteiro. Isso não é uma ofensa? Questionar a teoria evolucionista não é ofender quem dedicou uma vida inteira estudando elementos para embasá-la?

O que não pode é alguém se ofender com algo que eu disse, entrar em minha casa e me matar por isso.

Conviver em sociedade trata-se de aprender a evitar aquilo que te ofende e buscar opiniões semelhantes às suas, para que possa se sentir bem.

Vamos supor que a moda de imposição de respeito a fé alheia pegue e se espalhe pelo mundo, já imaginou o caos que seria quando descobrissem o que rola nas praias brasileiras? Ou se suspeitassem do que fazemos nas festinhas da faculdade? Ou, pior ainda, o que eles fariam quando soubessem das diversas maneiras que usamos para alcançar o prazer no sexo, fazendo um verdadeiro contorcionismo na cama? Ou, às vezes, fora da cama também, né?

O fato é que fé nenhuma pode interferir na vida de quem está fora dela.

Ainda dentro desse contexto, semana passada fui surpreendido com a seguinte pergunta: “você iria preferir ter um filho ‘viado’ ou ladrão?”.

Já tinha assistido um vídeo onde várias pessoas eram perguntadas assim, mas, não imaginei que tal questão fosse levantada em meu círculo de convivência. Mais espantoso que o próprio questionamento, é saber que consideram uma resposta correta para ele e não é a primeira opção.

Ou seja, seguindo a confusa lógica da sociedade temos que: mulher precisa cuidar de seu “bumbum” para agradar o homem. Não se pode ofender nenhuma religião, porém, o religioso pode ignorar o que lhe foi ensinado na Bíblia para “aceitar” a execução de um traficante. Bandido bom só quando está morto. Entretanto, mesmo assim ainda é melhor do que ter filhos gays.

A incoerência é tão grande que fica praticamente impossível criar um perfil de cada pessoa que eu conheço ou dos programas que vejo na tv. Cada semana parece que estão interpretando um novo papel no teatro da vida. Espetáculo escrito e dirigido por um tal de Cidadão de Bem.

 

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Categorias:Crônicas Tags:,
  1. 19/01/2015 às 22:43

    Já disse que vc tem que melhorar seu círculo de convivência? Você tem.

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