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AZUL É DE MENINO, ROSA DE MENINA

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Fila é uma coisa engraçada. Seja no banco, banheiro ou para pegar o ônibus é sempre um bom momento para se observar o comportamento humano. Identificando aquela pessoa mais estressada, ou aquela que trapaceia entrando disfarçadamente na frente de outra que se distraiu por alguns instantes ou, até mesmo, aquela que está cheia de carência afetiva e aproveita um simples contato visual para se aproximar contando histórias de sua vida inteira para a pessoa mais próxima.

E passando por uma dessas filas da vida, ouvi um diálogo que me fez refletir sobre o nível da nossa evolução como humanidade.

Às vezes, a praticidade que as redes sociais nos oferecem para filtrarmos o que pode ou não aparecer em nosso feed de notícias, pode gerar uma sensação ilusória de estarmos no caminho certo. Criamos nosso pequeno universo individual que nos isola de uma realidade bem mais indigesta do que desejávamos.

Quando presenciei tal conversa, foi como se tivessem me arrancado de minha bolha confortável para me aplicarem sessões de choque de realidade.

Antes de continuar com minhas reflexões, transcrevo a seguir o diálogo entre os dois amigos:

– Rapaz, acho que não te contei, mas, finalmente encontrei uma escola boa para meu filho!

– Sério? Que legal!

– Pois é. Essa escola já ensina desde cedo o que é de menino e o que é de menina.

– Nossa, graças a Deus! Hoje em dia esse povo não se importa mais com nada, então é importante reconhecer quem ainda respeita os valores da família.

– Isso mesmo.  Veja o absurdo que eu ouvi lá do Galois, na primeira reunião com os pais a professora já veio com uma conversa de que não haveria festas de dia dos pais ou das mães, mas, um único evento para celebrar o dia da família. Dizendo ela, que o objetivo era de nenhum aluno se sentir excluído dos eventos.

– Que frescura! É por isso que esse país tá essa bagunça danada. Essa pouca vergonha que vemos em cada esquina. (Nesse exato momento comecei a olhar ao redor na esperança de encontrar alguma orgia, mas, só vi uma senhora vendendo enfeites de Natal).

– Por isso estou te falando que agora sim encontrei uma escola boa de verdade. Ontem fui tomar sorvete com meu filho e ele recusou a colherzinha que a balconista lhe ofereceu porque era cor de rosa. Ele disse bem assim: “Troca para mim, tia. Essa aqui é de menina.

– Oh que benção! Tão bonitinho. Pena que nem todos são assim.

Os dois continuaram tecendo mais alguns elogios para a metodologia, um tanto quanto questionável, da tal instituição de ensino. Porém, me retirei de fininho para evitar qualquer comentário sarcástico e gerar um desconforto em público. Confesso que também temi que daquela conversa bizarra saísse um plano para “limparem” o planeta de todas as crianças imperfeitas… Para um dia de trabalho que já não estava lá essas coisas, tudo que eu não queria era ouvir algo assim.

Mas, quero chamar a atenção para a ironia da situação. Eu passei anos estudando para me formar em Matemática, perdi as contas de quantas madrugadas fiquei em claro resolvendo listas de exercícios até amanhecer o dia e ter que ir trabalhar sem ter dormido direito. Li inúmeras pesquisas e artigos de estudiosos em educação para desenvolver minha metodologia de ensino e reciclar meus conhecimentos. Para, no fim das contas, descobrir que tudo isso foi em vão, pois, para ter o devido reconhecimento profissional só precisava separar em sala de aula o que é de menino e menina.

É frustrante constatar que você vive em uma sociedade que insiste em caminhar na contramão de qualquer evolução que se possa ter.

Não sou a pessoa ideal para falar sobre desigualdade de gêneros, porque para mim tudo sempre foi mais fácil. Afinal, sou homem e heterossexual. Nunca senti na pele a vergonha da discriminação por conta de algum desses fatores.

Na verdade, a maior dificuldade que enfrento é a de me esforçar para não cair no senso comum. Tendo que me policiar diariamente para não agir conforme fui programado durante minha vida inteira por uma sociedade machista.

Porém, nada que se aproxime da humilhação sofrida por mulheres e todos que integram o público LGBT.

Acredito ser absolutamente compreensível os pais desejarem educar seus filhos conforme suas crenças. Porém, exigir que a escola acompanhe esse pensamento não seria o cúmulo de um fanatismo religioso? Não seria extinguir um dos únicos campos neutros que temos na sociedade e escancarar nossas defesas contra o radicalismo extremo dos fascistas?

Como civilização, precisamos de equilíbrio. É fundamental ter consciência de quais são os dois lados de uma mesma moeda. Enquanto as igrejas ensinam que já saímos do útero materno condenados ao sofrimento infernal só por causa de uma mulher, em contrapartida, a escola precisa mostrar a coragem de Anita Garibaldi e as histórias de Cora Coralina, por exemplo.

Me recuso a aceitar que meu papel como professor se resume em deixar claro coisas do tipo: futebol é esporte para os garotos e queimada para as meninas. Tenho certeza que posso muito mais.

Escolhi ser professor de Matemática porque me apaixonei pela exatidão dos números. Em minha área não existem regras de gêneros. Aprendi que existem diversos caminhos para se chegar ao mesmo resultado e é exatamente essa ideia que tento passar para os alunos. Preciso mostrar que posso chegar ao número oito, somando três com cinco ou vinte com menos doze, por exemplo.

Na vida, também não existe um único caminho para se alcançar a felicidade. Seja com uma colher rosa, azul, verde ou vermelha o sabor do sorvete sempre será o mesmo.

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  1. Evelyn Carli
    11/12/2014 às 8:56

    Adorei o texto.

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