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POR ISSO, NÃO VOTO EM AÉCIO

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Antes de qualquer coisa, quero deixar claro que não pretendo convencer ninguém a trocar seu voto após ler este texto. Não acho adequado debater política como um torcedor defende seu clube de futebol. Prefiro acreditar que cada um se decide por aquele candidato que mais se aproxima de suas concepções ideológicas.

E, com base nisso, escrevo no intuito de expor alguns dos motivos pelos quais eu não voto em Aécio Neves.

Nas últimas semanas alguns eleitores do candidato tucano expressaram um sentimento de superioridade intelectual em relação aos outros que se opõem ao seu posicionamento político. Fato que, por si só, já seria questionável, porém, deixando a presunção de lado, vale lembrar que a maioria deles começou a acompanhar as campanhas eleitorais só agora nos últimos três meses, após a Copa do Mundo. Estes seres, tomados por uma arrogância irracional, não percebem que, enquanto eles estavam vestidos com suas camisetas amarelas assistindo aos jogos da seleção dentro de arenas superfaturadas, do lado de fora daquele universo verde e amarelo tinham pessoas preocupadas com outros assuntos, inclusive política.

Portanto, a escolha de um candidato não torna ninguém superior, afinal, em um país onde todos somos obrigados a votar, essa decisão pode estar mais relacionada a uma atitude mecânica do que cognitiva.

Esses mesmos eleitores também adotaram um discurso de vítimas de um suposto golpe socialista idealizado pelo PT, quando na verdade foi justamente a ausência de um governo nos padrões da antiga esquerda que decepcionaram quem acreditava em uma reformulação promovida pelo partido dos trabalhadores. O dinheiro investido em Cuba, Venezuela e Bolívia está longe de representar uma mudança em nosso sistema capitalista, nada mais é que um afago no ego dos esquerdistas radicais que ainda tentam enxergar resquícios de sua ideologia em um partido que há muito tempo deixou de representá-los.

Dilma e Aécio se diferenciam em poucos aspectos e, talvez seja esse o motivo de uma disputa tão acirrada. Opõem-se apenas para exercer o papel de atores engajados nos debates teatrais exibidos na televisão.

Claro que me decepcionei com os governos petistas, principalmente por conta da continuidade de esquemas de corrupção presentes em governos anteriores. Contudo, diante de propostas tão semelhantes, acho mais fácil dizer o porquê não voto no senador tucano.

Para ilustrar os motivos de minha decisão, lembro da primeira entrevista de Lula para o Jornal Nacional depois de eleito presidente da República. Na época, durante um momento de descontração, ele revelou que gostava de lavar as louças em casa, dividindo atividades domésticas com a esposa. Aposto que naquele momento muito machão sentado no sofá da sala repensou algumas de suas atitudes como marido.

Doze anos depois, eleger um homem que classifica a população brasileira entre “dona de casa que vai ao mercado” e “trabalhador que precisa pagar as contas no fim do mês”, seria, no mínimo, ficar quatro anos sem evoluir em debates que sempre estiveram à margem dos temas abordados no Brasil. Seria a volta do Estado que não se considera racista, enquanto esconde seus negros nas periferias das cidades. Ou que se diz respeitar os valores da família tradicional, tapando seus olhos para não ver homossexuais fingindo ser héteros para serem tratados como “pessoas normais”. Uma sociedade retrógrada e tão surreal que não se encontra nada parecido nem nas novelas da Globo.

Não voto em Aécio pelo o retrocesso social que esse gesto representaria. Afinal, quero ter o direito de ficar em casa e fazer compras na mercearia, enquanto minha esposa trabalha duro para receber seu salário para pagar nossas contas no fim do mês, sem que isso seja considerado uma inversão de papéis.

Fora esse aspecto baseado puramente em uma frase do candidato que observei durante um debate, incluo em meu argumento dois itens pontuais de seu programa de governo que me preocupam tanto como professor, como também, cidadão.

Redução da maioridade penal e meritocracia. São dois temas que podem ser considerados o ouro de tolo da campanha tucana. O brilho das palavras usadas para descrevê-los cega as pessoas, impedindo que vejam o que se esconde por trás disso tudo.

Com a primeira medida, só se muda o endereço onde os jovens infratores de dezesseis e dezessete anos serão despejados. E certamente, sem uma medida eficiente para diminuir o poder de atuação do tráfico, ainda teremos menores trabalhando para o crime, só que agora iniciando sua carreira antes dos quinze anos de idade.

Poderá ser um verdadeiro tiro no pé, sem nenhuma redução na violência. Como aconteceu na Alemanha e Espanha, por exemplo. Sei que esse projeto não depende do poder executivo para entrar em vigor, porém, diante do Congresso extremamente conservador que foi formado nessas últimas eleições, não duvido que uma pauta dessas seja aprovada facilmente.

Já em relação à meritocracia, acredito que vincular o salário do trabalhador a metas atingidas pela empresa só funcionaria nos casos onde o funcionário tivesse uma participação efetiva nas decisões tomadas por seus chefes. Entretanto, é sabido que no serviço público, um contrato mal feito pode contribuir muito mais para o sucateamento de um setor do que o despreparo de um empregado displicente.

Seria justo deixar o seu salário nas mãos de gestores preocupados apenas com o próprio bolso?

Portanto, se recusar a votar em Aécio Neves não significa ser conivente com os escândalos de corrupção dos governos petistas. É evidente que desejo que todos os envolvidos sejam julgados, condenados e, se possível, devolvam o dinheiro para os cofres públicos, independente de suas filiações partidárias.

Não se trata de aprovação de um em detrimento de outro. Eu não voto nele por reprovar o que seu partido representa. Um modelo neoliberal moldado em ideias obsoletas, como, por exemplo, “a dona de casa que vai ao mercado”.

Como esperar que um governo feito nesses parâmetros promova mudanças significativas na educação? Como acreditar que uma reforma no currículo escolar, feita por eles, não será apenas a valorização do Ensino Religioso no ensino básico para agradar algum pastor da bancada evangélica? Como me identificar com alguém que deixava o dedo em riste diante dos rostos de Luciana Genro e Dilma, enquanto, por outro lado, trocava afagos camaradas com Levy Fidelix e pastor Everaldo?

Não voto com a convicção de quem não encontrou respostas para esses questionamentos em nenhum de seus discursos entusiasmados durante sua campanha eleitoral.

Não tenho a ingenuidade de achar que um segundo mandado de Dilma implicaria em uma mudança de paradigmas. Sei que uma democracia saudável necessita de alternância de governos. Entretanto, diante do atual cenário, prefiro escolher continuar andando para frente, mesmo que seja a passos lentos, do que dar um salto para trás, sem lembrar da quantidade de pedregulhos que ficaram pelo caminho.

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