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SOBRE O DEBATE DA BAND

debate band

Política é uma coisa muito engraçada e, particularmente, sempre gostei de acompanhá-la. Debates políticos são verdadeiras peças teatrais, onde cada ator já tem um texto decorado e aproveita cada oportunidade, por menor que seja, para emplacar o seu discurso.

Ontem, no primeiro debate entre os candidatos à presidência da República, tivemos um espetáculo completo com protagonistas e coadjuvantes.

Um aspecto que despertou minha curiosidade é que apesar de todos candidatos defenderem a tal “mudança” na política, só foi possível notar essa ideia em três dos sete candidatos presentes. Luciana Genro (PSOL), pastor Everaldo (PSC) e Eduardo Jorge (PV) apresentaram, de fato, propostas que realmente representam alteração na forma de governar o país, cada um ao seu estilo.

Perceba que nenhum deles figura entre os favoritos. Portanto, se você estava sedento por mudanças, melhor esperar até 2018.

Luciana Genro, nos moldes da esquerda tradicional, propõe debates de temas importantes, mas, que sempre foram deixados de lado por conta das polêmicas que os acompanham, como por exemplo, a legalização da maconha e regulamentação do aborto. Seria verdadeiramente uma mudança significativa na forma de direcionar o país, porém, sinceramente, acredito que o Brasil, tanto como sociedade quanto como Congresso, está imensamente distante da maturidade política necessária para colocá-los em prática. Suas idéias, embora modernas, são inviáveis na atual conjuntura da política brasileira.

Pastor Everaldo, por sua vez, caminha em direção oposta a de Luciana. Defendendo um discurso completamente obsoleto, onde deixa claro sua intenção de entregar o país para a iniciativa privada. Mas, não explica como isso ajudaria na redução de juros e nem consegue listar quais seriam os benefícios dessa medida para a população. Será que privatizar a Petrobras reduziria os preços dos combustíveis? Observando outros países, seja com empresas estatais ou com privadas, não consigo fazer uma relação direta para concluir que isso aconteceria.

Francamente não consigo entender como ainda é possível que um país, em pleno desenvolvimento econômico, apresente candidatos como esse. Defensor da “família tradicional” e que diz respeitar as diferenças, porém, nas eleições para o presidente de um estado laico, leva para a urna um título religioso ao lado de seu nome.

Eduardo Jorge, aparentemente, é dotado de boas ideias e intenções. Pensamentos modernos, sustentáveis e menos radicais que os de Luciana, o que os tornam mais viáveis atualmente. Porém, o candidato não transmitiu segurança em seus argumentos, parecendo, algumas vezes, que não estava encarando o debate com a seriedade esperada.

Levy Fidelix (PRTB) não propôs nada diferente. Para ser sincero, me pareceu que ele estava ali a passeio. Confesso que foi difícil levá-lo a sério após sua declaração sobre estar ali para “bombardear os grandões” ao se referir aos três principais candidatos. Sobre segurança pública, defendeu o direito de cada “cidadão de bem” ter sua própria arma em casa. Juro que fiquei esperando um “Deus salve a América” ao final de seu discurso para completar de vez a caricatura do “político-que-zela-pelo-bem-da-família”.

Sobre os três candidatos mais bem cotados nas pesquisas, Dilma (PT), Marina (PSB) e Aécio (PSDB), há pouco o que comentar. O trio está cercado por excelentes assessores e, por isso, dificilmente entrariam em alguma polêmica durante um debate ao vivo. Seguiram a cartilha e fizeram bem o dever de casa.

Dilma, como já era de se esperar por ser a atual presidente, foi o saco de pancadas dos demais candidatos e se manteve na defensiva. E, dentro do proposto, se saiu bem desviando o foco de assuntos delicados e apresentando números, que não poderiam ser questionados sem um estudo prévio, para contra-argumentar com os demais candidatos. Defendeu mudança, se referindo ao governo FHC. Porém, já não mudamos quando o Lula assumiu? Portanto, na prática, ela não pretende alterar nada do que já está sendo feito, o que é bastante óbvio ao se tratar de uma candidata que busca se reeleger.

Aécio Neves e Marina Silva não conseguiram mostrar quais as alterações estão dispostos a fazer no atual modelo político. O senador mineiro deixou claro que não está disposto a enfrentar nenhum desgaste em seu governo para bancar uma reforma política e vai jogá-la nas costas do Congresso. Ou seja, nada de diferente. Já Marina soube contornar o tema e não se comprometeu efetivamente com nada concreto.

Com uma oratória digna de nota e uma eloquência de dar inveja nos demais candidatos, a ex-ministra do Meio Ambiente, assim como Dilma, se saiu bem de todas as investidas de ataque tucano. Entretanto, seu discurso foi raso e genérico. Não deixou claro o número de ministérios que terá em seu governo, caso eleita. Não respondeu claramente qual seria sua posição sobre o fator previdenciário e nem mesmo citou em suas falas o seu atual partido PSB, deixando transparecer que está ali apenas de passagem.

Mas, sem dúvida, ela foi quem se saiu melhor no debate. Já Aécio Neves, a impressão que deixa é de ter perdido a primeira batalha e que seu caminho para alcançar o Palácio do Planalto será o mais tortuoso ao se comprar com Dilma e Marina.

A disputa está boa e imprevisível. O debate manteve-se no nível das propostas e de respeito entre os participantes, o que é algo muito positivo para a política brasileira. Ainda é muito cedo para se fazer qualquer palpite sobre o resultado final, pois é certo que nos próximos encontros os ataques contra as duas principais candidatas serão mais incisivos o que pode, ou não, alterar as intenções de voto.

Só espero que não desçam o nível do debate com acusações mais infantis, pouco fundamentadas e que perdem completamente o foco das propostas de governo. Pois isso seria puro retrocesso e prejudicaria apenas a política brasileira, mas, para saber ao certo o que vai acontecer, só mesmo acompanhando os próximos debates.

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