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Archive for agosto \27\UTC 2014

SOBRE O DEBATE DA BAND

debate band

Política é uma coisa muito engraçada e, particularmente, sempre gostei de acompanhá-la. Debates políticos são verdadeiras peças teatrais, onde cada ator já tem um texto decorado e aproveita cada oportunidade, por menor que seja, para emplacar o seu discurso.

Ontem, no primeiro debate entre os candidatos à presidência da República, tivemos um espetáculo completo com protagonistas e coadjuvantes.

Um aspecto que despertou minha curiosidade é que apesar de todos candidatos defenderem a tal “mudança” na política, só foi possível notar essa ideia em três dos sete candidatos presentes. Luciana Genro (PSOL), pastor Everaldo (PSC) e Eduardo Jorge (PV) apresentaram, de fato, propostas que realmente representam alteração na forma de governar o país, cada um ao seu estilo.

Perceba que nenhum deles figura entre os favoritos. Portanto, se você estava sedento por mudanças, melhor esperar até 2018.

Luciana Genro, nos moldes da esquerda tradicional, propõe debates de temas importantes, mas, que sempre foram deixados de lado por conta das polêmicas que os acompanham, como por exemplo, a legalização da maconha e regulamentação do aborto. Seria verdadeiramente uma mudança significativa na forma de direcionar o país, porém, sinceramente, acredito que o Brasil, tanto como sociedade quanto como Congresso, está imensamente distante da maturidade política necessária para colocá-los em prática. Suas idéias, embora modernas, são inviáveis na atual conjuntura da política brasileira.

Pastor Everaldo, por sua vez, caminha em direção oposta a de Luciana. Defendendo um discurso completamente obsoleto, onde deixa claro sua intenção de entregar o país para a iniciativa privada. Mas, não explica como isso ajudaria na redução de juros e nem consegue listar quais seriam os benefícios dessa medida para a população. Será que privatizar a Petrobras reduziria os preços dos combustíveis? Observando outros países, seja com empresas estatais ou com privadas, não consigo fazer uma relação direta para concluir que isso aconteceria.

Francamente não consigo entender como ainda é possível que um país, em pleno desenvolvimento econômico, apresente candidatos como esse. Defensor da “família tradicional” e que diz respeitar as diferenças, porém, nas eleições para o presidente de um estado laico, leva para a urna um título religioso ao lado de seu nome.

Eduardo Jorge, aparentemente, é dotado de boas ideias e intenções. Pensamentos modernos, sustentáveis e menos radicais que os de Luciana, o que os tornam mais viáveis atualmente. Porém, o candidato não transmitiu segurança em seus argumentos, parecendo, algumas vezes, que não estava encarando o debate com a seriedade esperada.

Levy Fidelix (PRTB) não propôs nada diferente. Para ser sincero, me pareceu que ele estava ali a passeio. Confesso que foi difícil levá-lo a sério após sua declaração sobre estar ali para “bombardear os grandões” ao se referir aos três principais candidatos. Sobre segurança pública, defendeu o direito de cada “cidadão de bem” ter sua própria arma em casa. Juro que fiquei esperando um “Deus salve a América” ao final de seu discurso para completar de vez a caricatura do “político-que-zela-pelo-bem-da-família”.

Sobre os três candidatos mais bem cotados nas pesquisas, Dilma (PT), Marina (PSB) e Aécio (PSDB), há pouco o que comentar. O trio está cercado por excelentes assessores e, por isso, dificilmente entrariam em alguma polêmica durante um debate ao vivo. Seguiram a cartilha e fizeram bem o dever de casa. Continue lendo

A DISTRAÍDA

distraída

 

A distraída entra pela porta da loja de acessórios para celular, apressada e desorientada. Sem fazer rodeios pergunta ao atendente sobre o paradeiro de outro funcionário demonstrando ter amizade com ele:

– Onde está o Juliano? – pergunta esbaforida.

– Está no horário de almoço, senhora. Só retorna às quatorze horas. – responde o funcionário.

– É que eu comprei um cabo USB aqui, está lembrando? – indaga a mulher como se já tivesse certeza que a resposta seria positiva.

– Desculpe, senhora. Mas, como são muitos clientes por dia, não consigo me lembrar agora. Que dia foi feita a compra?

– Há umas três semanas, mais ou menos.

– Mas, em que posso ajudá-la? – perguntou o atendente solícito por obrigação.

– O cabo parou de funcionar, tem como trocá-lo?

– Claro. A senhora está com ele aí? E a nota fiscal?

– Precisa da nota?

– Sim. Da nota e do cabo.

– Do cabo também?!

– Sim, senhora. Precisamos do cabo para trocá-lo.

– Eu deixei o cabo lá em casa, mas, acho que deixei a notinha em algum lugar aqui dentro da minha bolsa.

– Entendo. Mas, a senhora pode procurar com calma e voltar aqui com os dois que nós trocaremos o cabo.

– Posso sentar aqui nessa cadeira para procurar essa notinha? Tenho certeza que ela está por aqui… – perguntou a distraída já se sentando na cadeira da loja.

O vendedor da loja não respondeu, mas, balançou a cabeça afirmativamente.

A mulher remexia a bolsa e retirava uma quantidade significativa de pequenos papéis dobrados lá de dentro.

– E depois ainda dizem que nós mulheres organizamos nossas bolsas. – comentou a distraída, rindo da própria piada.

O atendente não riu.

– E o Juliano, está por aqui? – questionou sem tirar os olhos da bolsa. Continue lendo