Início > Contos, Crônicas > XÍCARA CHEIA, CONVERSA VAZIA

XÍCARA CHEIA, CONVERSA VAZIA

xicara de cafe

– E aí, você pegou a Aninha? – pergunta o colega de trabalho que acaba de entrar na copa onde o colega aguardava seu café ficar pronto.

– O que? – questiona o outro um pouco confuso.

– A Aninha. Aquela estagiária do segundo andar. – esclarece.

– O que tem ela?

– Você pegou?

– Não. Claro que não! Como assim?! – se espanta o colega que aguarda o café ficar pronto.

– Ué, ontem você não deu carona para ela? – pergunta novamente o colega curioso com ar de dúvida.

– Sim. Mas, isso não quer dizer nada.

– Ah… vai dizer que ela não é gostosa? – insiste com tom de desconfiança.

– Claro que ela é bonita. Mas, não rola.

– Duvido.

– De que?

– Que você não pegou a Aninha.

– Não peguei. – respondeu com intenção de encerrar a conversa.

– Que vacilo.

Segundos em silêncio, que foram interrompidos pelo colega que insistia no assunto.

– Se fosse comigo, eu pegaria fácil, fácil.

Depois de um gole de café, o colega de trabalho, que deu a carona para a estagiária, perguntou segurando o riso:

– Quer dizer que você que toda mulher que entra no seu carro, você tem que pegar?

– Claro!- respondeu o outro com seriedade.

– E se ela não estiver afim?

– Ah tá… Deixa de ser ingênuo, rapaz!

Não houve pergunta, mas, percebendo a expressão de curiosidade do colega que segurava o copo de café, resolveu complementar seu raciocínio. 

– Toda mulher que aceita carona de um cara é porque está afim dele.

– Quem falou isso?

– Eu tô dizendo.

– Então, se sua esposa pegar carona com algum colega de trabalho, não é para evitar o caótico sistema de transporte público após um cansativo dia de trabalho, mas, porque está afim do cara?

– Sim. É por isso que eu não deixo minha mulher pegar carona com ninguém. Ou anda no meu carro ou de ônibus! – decretou o colega orgulhoso com sua fabulosa lógica.

– Infelizmente eu não tenho esse charme todo. Comigo, é só carona mesmo. – concluiu com ironia na voz.

– Ah… eu sempre fui pegador. – decretou o colega que não percebeu a ironia – Sua esposa sabe que você anda dando caronas para as estagiárias da empresa? – emendou malicioso.

– Não, como também não sabe que neste exato momento estou tomando café. É um fato irrelevante.

– Sei… seu malandro! – exclamou cutucando o colega com o cotovelo numa clara demonstração de que não acreditava nele.

– Se a carona fizer parte do assunto da conversa, não teria problema nenhum em falar para ela. – tentou explicar enquanto dava mais um gole no café.

– E ela aceitaria tranquilamente?

– E quais motivos ela teria para não aceitar?

– Você sozinho dentro de um carro com uma estagiária gostosa.

O homem que segurava o copo quase vazio encarou o seu colega de trabalho por alguns segundos; respirou fundo; pensou como era possível alguém manter uma relação naquelas condições; tomou nota mental de que relataria aquela conversa para sua esposa para rirem juntos da situação; bebeu o último gole do café; ponderou se adiantaria argumentar; decidiu que não queria prolongar aquela conversa e resolveu encerrá-la do modo mais fácil:

– Cara, você é muito foda!

O amigo sorriu e saiu satisfeito com seu copo de café na mão entendendo aquilo como um elogio.

Anúncios
Categorias:Contos, Crônicas Tags:
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Gostou? Então comenta aí.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s