Início > Crônicas > APERTARAM A TECLA REW DA SOCIEDADE

APERTARAM A TECLA REW DA SOCIEDADE

tecla rew

A evolução da sociedade é diretamente proporcional a capacidade de raciocínio do ser humano. Para se ter uma ideia, houve um tempo que levava semanas para que uma mensagem escrita chegasse até seu destinatário, dependendo da distância entre emissor e receptor. Hoje, em milésimos de segundos, publico este texto para quem quiser ler em qualquer lugar do planeta. (Tudo bem que não imagino alguém lendo o meu blog no fundo do oceano ou aos pés de um vulcão prestes a explodir)

Porém, observando o comportamento das pessoas na internet, muitas vezes encorajadas pelo anonimato, diria que estamos presenciando o princípio de uma provável involução da sociedade. Ou, como preferir, um retrocesso de pensamento.

Essa hipótese pode ser argumentada pelo fato de que hoje é muito fácil “ser inteligente”: Basta ser eloquente, falar mal do governo em qualquer situação, se posicionar firmemente sobre qualquer assunto e parafrasear o senso comum usando palavras sofisticadas. Ou seja, parece que abriram mão da ação de desenvolver o raciocínio para se contentarem apenas com a aparência.

É como se o “só sei que nada sei” de Sócrates fosse atropelado pelo “eu sei de tudo e você não sabe de nada” da Raquel Sherazade.

Na verdade, essa jornalista representa bem o cenário que estou tentando descrever.

Com aquela velha opinião formada sobre tudo, sua boca parece mais uma metralhadora disparando centenas de palavras que ferem a base de uma sociedade civilizada.

A História nos mostra que quando pessoas com o dom da oratória resolvem convencer as outras que é possível “limpar” a sociedade de suas maçãs podres, a suposta faxina é feita com violência, arbitrariedade e derramamento de sangue. Foi assim na Santa Inquisição e no Holocausto nazista.

O fato que causou toda essa repercussão foi o comentário da Sherazade sobre uma reportagem que mostrou um adolescente nu, preso pelo pescoço em um poste de luz por uma tranca de bicicleta. O adolescente era suspeito de um assalto e os populares o capturaram.

O fato, só pela violência visual, já deveria ser repugnante. Mas, a jornalista considerou o ato “compreensível”. E, como se não bastasse, milhares de pessoas bateram palmas e compartilharam a hashtag #AdoteUmBandido lançada por ela.

A violência como justificativa da “ausência de justiça” e sentimento de “total insegurança”, não deixa de ser ignorância. Na verdade, você espancar um cara, torturá-lo, despi-lo e deixá-lo amarrado em praça pública, não é um grito de socorro, mas, um urro vitorioso do animal que abateu o mais fraco em uma selva.

A pessoa que age dessa forma não é diferente do criminoso preso ao poste. Assim como ele justifica seu crime com sua falta de condições, essa pessoa usa o argumento da legitima defesa. Porém, ambos na verdade praticam sua perversidade inerente, como diria Allan Poe.

Algumas pessoas são influenciáveis e até hoje percebo efeitos do filme Tropa de Elite sobre o comportamento da sociedade brasileira. Ao assistir o jornal, na hora da reportagem sobre algum crime, baixa um Capitão Nascimento no cidadão comum, que grita “faca na caveira” e deseja colocar uns dez indivíduos na “conta do papa”, porém, acredito que essa influência só acontece porque lhe convém. Por exemplo, no segundo filme da franquia – cujo o título já informa que “Agora o inimigo é outro” – as pessoas meio que ignoraram a parte em que o mesmo Capitão Nascimento constata que passou boa parte da sua vida matando, inutilmente, bandidos no morro. Afinal, o problema vai bem mais além do que o ato criminal em si.

Ele percebe que o problema é o Sistema. E o Sistema, meu amigo… O Sistema é foda.

Mas, essa fala não virou bordão. E o espírito do Capitão Nascimento não baixa no cidadão na hora em que ele assiste a um programa ou jornal que, muitas vezes, pode trabalhar para o mesmo Sistema que tanto odeia.

Fazer justiça com as próprias mãos não é sinal de desespero ou a última solução para a Segurança Pública. É burrice!

Isso só é bonito quando faz sentido fizer parte de um roteiro de um filme americano, pois, na vida real, quem mata por vingança também é um assassino. E ponto final. Não há porém, todavia, contudo ou entretanto. Ao tentar fazer algo que parecia “justificável” a pessoa, sem perceber, foi engolida pelo Sistema.

O opinião da Raquel Sherazade é ultrapassada, afinal, é bem mais fácil se revoltar contra o marginalzinho que assalta na rua do que emitir uma opinião contra os crimes de colarinho branco cometidos pelos grandes empresários que sonegam cerca de milhões de reais todos os anos.

Condenar o marginalzinho preto e pobre é moleza, entretanto, o cara do colarinho branco pode ser o seu patrão.

As consequências futuras para esse tipo de pensamento fascista, como o da jornalista, podem ser tiradas do nosso passado. Continuando assim, pessoas se sentirão no direito de mandar para fogueira todos aqueles que preferirem não seguir o caminho da luz apontado pelo seu líder espiritual. Escravizarão aqueles considerados de uma raça inferior. Muitos outros morrerão numa câmara de gás apenas por serem diferentes do dono da câmera de gás.

Eu sei que depois de ler este texto, muitos vão pensar que estou exagerando, afinal é só a opinião de uma jornalista e estou fazendo uma verdadeira tempestade em copo d´agua. Os mais revoltados vão desejar ainda que algum membro da minha família seja cruelmente assassinado por um bandido, de preferência menor de idade, para ver se depois continuarei defendendo esse tipo de gente.

Bom, para esses, desejo que fiquem na paz de Jah, deixo muitos beijinhos de luz e que tenham noites super fofas assistindo ao Jornal do SBT e delirando com os comentários audaciosos da jornalista mais inteligente do Brasil.

Afinal, esperar que esse tipo de pessoa interprete bem um texto, seria pedir demais, não?

Anúncios
  1. Karin K.
    09/02/2014 às 14:05

    Oi Rodolfo,
    o negócio é desligar a TV. O sistema de comunicação manipulativo e a falta de solidariedade humana em nossa sociedade me indignam cada vez mais. Violência para mim é ignorância pura. A falta de moral, educação e assistência social causam as “maçãs podres” em nossa sociedade. Lembranças da Alemanha!

  1. No trackbacks yet.

Gostou? Então comenta aí.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s