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PROPAGANDA É A ALMA DO NEGÓCIO, MAS NÃO DA LEITURA

E não é que estão colocando comerciais de incentivo à leitura na programação da Globo? Muito boa desta iniciativa do Ministério da Cultura, mas ainda é pouco para mudar a realidade do país.

Baseado em minha experiência, defendo que o dia em que o incentivo à leitura deixar de ser apenas uma frase de efeito na televisão e passar a ser algo palpável, será o início da caminhada pelo caminho certo.

Acredito que, em relação a esse tema, pequenas atitudes podem fazer a diferença. Listo a seguir três medidas fundamentais para a formação de um leitor.

1- Deixar de mostrar o livro apenas em um intervalo comercial, mas também como parte do enredo da atração, com personagens que vão à biblioteca, livrarias e aproveitam o conteúdo da leitura para alcançar seus objetivos.

2- O professor perceber que a melhor forma de incentivar a leitura não é colando livros com uma carinha feliz no mural da sala de aula, mas lendo em frente aos seus alunos. O professor precisa ser um leitor.

3- O Governo agir de forma contundente, baixando juros para editoras (afinal, não fizeram algo parecido para as montadoras de carros?) e estimulando o uso das bibliotecas públicas, que andam abandonadas e sucateadas. Investir em bibliotecas é uma medida necessária, afinal pesquisas revelam que grande parte das pessoas que freqüentam esses espaços não está interessada em pegar livros emprestados.

São maneiras que, de certa forma, contradizem aquela ideia de que “o hábito de ler vem de casa” e mostra que a leitura não é algo tão restrito assim.

Claro que uma criança criada com pais leitores terá mais facilidade de se apaixonar pelo universo literário. Mas, existem outros meios de se criar um leitor, afinal, foi com base nesses três pontos citados que comecei a me interessar pela leitura.

Meu primeiro livro foi graças a um desenho infantil chamado “As trigêmeas”. (Detalhe, eu já tinha estava no Ensino Médio). Era um desenho bem bobinho, colocado na grade apenas para encher lingüiça. Lembro que em cada episódio as personagens viajavam para dentro de alguma história e no final sempre terminavam dizendo que para saber mais daquela aventura o telespectador poderia ler o livro.

Funcionou comigo, e foi por isso que comecei a ler Dom Quixote de la Mancha.

Portanto, sou prova viva, colocar livros como parte do enredo é bem mais eficaz do que deixa-los apenas nos intervalos comerciais.

Sobre o segundo ponto citado, confesso que fico espantando com algumas atitudes de certos professores. Nos últimos anos, em toda escola que trabalhei, raras exceções leram outro livro que não fosse A Cabana, de William P. Young. Falem o que quiser, mas isso é muito pouco para um professor.

Em compensação, também no meu Ensino Médio, tive uma professora que me incentivou, mesmo sem saber, a ser o leitor que sou hoje. Entrei na sala dos professores e ela estava lendo o livro do Rei Arthur, perguntei (só por educação) se a leitura estava boa, para meu espanto, ela disse que sim e que poderia me empresta-lo.

O livro era muito grosso, mas como iria amarelar logo em frente a mulher que definiria a minha aprovação ou não no ano letivo? Acabei lendo o livro em poucos dias, viajando naquela narrativa cavalheiresca.

Quando viu minha empolgação com a leitura, para a minha felicidade aquela professora passou a me emprestar um livro após o outro.

Sabem com o que ela me presenteou na formatura? Uma edição especial (linda!) dos Lusíadas de Camões, o primeiro livro da minha biblioteca.

Como professor, sempre tentei fazer a mesma coisa com meus alunos. Ser um leitor também nas horas vagas e não apenas por obrigações profissionais.

E, por fim, mas não menos importante, o preço de atrações culturais. Dinheiro nunca foi problema para o desenvolvimento da minha leitura, pois sempre tive amigos para pedir livros emprestados, fui um rato de biblioteca (talvez por isso não fui muito popular na escola) e ainda sou freqüentador assíduo de sebos. Ou seja, ao contrário do que muitos pensam, é possível ler muito gastando pouco.

Mas, quando o assunto era teatro, que está completamente relacionado a literatura, a coisa complicava. Os valores dos ingressos sempre foram altos e a localização dos teatros favorece os bairros mais nobres da cidade. Só comecei a freqüentar mais esses espetáculos após me formar, comprar meu carro e conseguir minha carteirinha de professor para pagar meia entrada.

Sou a prova de que com pequenas atitudes, é possível formar grandes leitores. Sou extremamente preguiçoso e comecei a ler apenas no Ensino Médio, portanto, depois de ler esse texto, pegue um livro e faça a sua parte para que a leitura não seja apenas um comercial de televisão.

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