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RELATOS DA VELHA INFÂNCIA

Recentemente uma notícia me deixou bastante chocado: o programa Castelo Rá-Tim-Bum completou dezoito anos. Muito tempo, né? Bateu uma saudade daquele tempo em que eu ficava em casa sentado no sofá assistindo TV, tomando café e comendo rosquinhas Mabel. A única preocupação que tinha era de fazer o dever de casa antes da minha mãe chegar do trabalho.

Boas lembranças que me fizeram constatar o quanto algumas coisas mudaram nesse período. O Brasil não é mais o país do futebol, a novela das oito passou a ser das nove, malhação deixou de ser na academia, passou a ser na escola e agora não é nenhum nem outro. Os desenhos fazem mais sucessos entre os adultos do que entre as crianças, Plutão não é mais considerado um planeta, a língua portuguesa foi reformada e o cara que cantava Florentina de Jesus entrou para a história do Brasil sendo, até então, o segundo deputado mais votado do país.

Mas não quero criar mais um daqueles textos saudosistas que circulam pelas redes sociais endeusando a infância dos anos noventa e desqualificando a atual. Acho que os tempos mudaram e, naturalmente, o comportamento precisou mudar também. Nem melhor e nem pior, são tempos diferentes e ponto.

No entanto, um detalhe torna a infância dos anos noventa mais interessante do que a de hoje, naquela época EU era a criança. E quando se esta nessa fase da vida tudo fica mais divertido e emocionante. Por isso quero aproveitar esse texto para lembrar algumas coisas que eu fazia e acho que as crianças de hoje em dia não fazem mais, pelo menos não com a mesma frequência.

Perdi as contas de quantas vezes sai desvirando calçados pela casa para salvar a vida da minha mãe. Lembro de uma vez que entrei em desespero ao chegar da escola e perceber que havia deixado meu chinelo com a sola voltada para cima. Joguei minha mochila para o lado e corri para salvar minha mãe. Logo depois deste ato heroico, liguei para o serviço dela para saber se estava tudo bem e fiquei aliviado ao ouvir sua voz. Triste foi descobrir que meu esforço foi em vão, pois alguns dias depois, após ter ficado de castigo coloquei todos os meus sapatos virados de cabeça para baixo e não aconteceu nada com ela. (Gente, que fique claro: eu não queria matar minha mãe, era só para dar um susto)

E como eu era destemido! Já enfrentei o Mal inúmeras vezes ao entrar no banheiro da escola, bater três vezes na porta, falar três palavrões, dar três chutes no vaso, apertar a descarga e chamar três vezes por Maria Fumaça. Meu coração batia acelerado, eu não queria estar ali, está certo que naquela época não existia o tal do bullying, porém havia a desmoralização social e eu precisava demonstrar coragem. Depois de sair correndo e gritando desesperadamente por jurar ter visto uma mulher em forma de fumaça saindo do vaso sanitário, entrava aliviado na sala, sentia o cheiro de pó de giz que impregnava o ambiente e agradecia por estar vivo.

E o que dizer sobre as várias identidades que assumia em cada brincadeira? Eu já fui o Pagliuca (goleiro da Itália na Copa de 94), o Taffarel, o Raí, o Ayrton Senna, o Presto da Caverna do Dragão, o Hyoga dos Cavaleiros do Zodíaco, o Power Ranger azul e o verde, o Chaves, o Chapolin, o Tripa Seca, o Jaspion, o Ninja Jiraya, o Indiana Jones, o Robin Hood e, um dos meus favoritos, o policial John McClane, adorava fingir que era aquele cara do filme. Bem a contragosto, também tive que ser o Dengue e o Praga, mas só para satisfazer o desejo da minha irmã mais velha que queria ser a Xuxa.

É claro que as crianças de hoje em dia ainda brincam e provavelmente daqui a dezoito anos uma delas escreverá um texto bem nostálgico também. A magia da infância sempre será a mesma. Seja com um bilboquê feito de lata de óleo ou com um pião, com uma pipa ou com quatro pedras e uma bola, com um carrinho de rolimã ou com um de controle remoto, com um videogame ou com um iPad, não importa qual será o objeto, o fato é que as crianças continuarão se divertindo e brincando. Afinal, elas ainda não precisam se preocupar com juros, desemprego, corrupção e etc.

Sinceramente, não tenho como mensurar a qualidade dos atuais programas infantis, pois não tenho tempo para acompanhá-los. O que posso dizer é que há dezoito anos surgiu na televisão brasileira um programa chamado Castelo Rá-Tim-Bum. Com um roteiro simples, mas com histórias fascinantes. Um programa que, sem dúvida, contribuiu bastante para o desenvolvimento da minha imaginação e, o mais importante, me ensinou a ser uma criança questionadora o suficiente para não aceitar apenas um “porque sim” como resposta.

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