Início > Contos > AMOR MATERNO

AMOR MATERNO

Enquanto faziam as compras mensais para casa, a mãe se surpreende com a atitude de seu filho adolescente ao passarem pela seção de vestuário:

– O que é isso que você está colocando no carrinho, menino?

– É uma camiseta, mãe.

– Pode tirar isso daí. Não vou comprar essa coisa.

– Ah não, mãe. Por que você não vai comprar?

A mãe não responde a pergunta e continua mexendo com os cabides das calças moletons. Mas o filho não desiste:

– Ela é divertida. Eu sempre quis uma camiseta assim, é a minha cara.

– Deve ser por isso que é tão ridícula.

– Ah para com isso, mãe. Vou levar, tá?

A mãe lê em voz alta as palavras que estavam gravadas na camiseta amarela: “Dizem que o álcool mata lentamente. Ainda bem que eu não tenho pressa para morrer.”

– E desde quando você bebe, menino?

– Ah para, mãe! Eu já estou no primeiro ano do Ensino Médio.

– E já era para estar no segundo se não tivesse reprovado ano passado.

– Ah, mas eu já te falei que a culpa não foi minha. Aquele professor de Química ficou de marcação comigo.

– Ele corrigiu sua prova errado?

– Não.

– Sua prova era diferente do restante da turma?

– Também não.

-Ah tá… Então não diga que a culpa foi do seu professor! Agora explique melhor essa história de bebida.

– Mês passado, teve um dia que eu saí mais cedo da escola, então fui com os meninos para a casa do Peteca e tomamos uma caixinha de cerveja.

– Na casa de quem?

– Do Bruno, mãe. Aquele menino do terceiro ano que eu te falei que tem um carro todo tunado, lembra? É que a gente chama ele de Peteca por causa do cabelo dele.

– Ah… E onde vocês compraram cerveja?

– Aqui no mercado, ué. A gente juntou dinheiro e o Bruno comprou cerveja e gelo.

– Gelo? Para que vocês compraram gelo?

– Aqui não vende cerveja gelada, aí o Peteca disse que a que cerveja quente dava dor de barriga.

Segurando o riso e para não demonstrar o quanto estava se divertindo com aquela situação, a mãe manteve os olhos focados na etiqueta da calça que segurava com a mão direita.

– E você ficou bêbado?

– Nossa mãe, você precisava ter visto. Foi muito massa. Todo mundo ficou bêbado! Tinha gente chorando, rindo, se declarando para o outro… Uma loucura só.

– E quantas latinhas você tomou?

– Então, a gente teve que dividir pra todo mundo, né? Aí acho que deu uns dois copos cheios pra cada um!

– Seu pai sabe do seu alcoolismo?

– O que isso, mãe? Eu só bebo com responsabilidade.

Novamente a mãe se segura o riso, achando hilário o tom sério na fala de seu filho.

– Cria vergonha menino. Não vou comprar essa coisa feia aí.

– Mas mãe, eu nunca te peço nada. Compra vai, por favor.

– Você não quer algo legal? Por que você não pega aquela azul ali?

– Eco, nada a ver esse velho careca.

– Você leu o que tá escrito?

– Li. Não vi graça nenhuma e nem sei quem é esse tal de “Pink Freud”.

– Se fala “fróide”.

– Piorou.

– Você não entendeu?

– Não.

– Eles misturaram o nome da banda Pink Floyd com o Freud.

– E que graça tem nisso?

– Você não sabe quem foi Sigmund Freud?

– Não.

– E também nunca ouviu Pink Floyd?

– Sai pra lá mãe! Isso é banda de mulherzinha.

Pink Floyd?!

– Mãe, pink é rosa em inglês.

Sem saber o que falar,  em instantes a mulher projeta como será o futuro profissional de seu filho. Coloca a calça dentro do carrinho e começa a andar em busca dos outros itens da sua lista de compras. Encara seu filho por alguns segundos e decreta:

– Filho, pode colocar sua camisa também.

– Valeu, mãe! Agora, posso pegar um Sucrilhos?

Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Gostou? Então comenta aí.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s