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Archive for maio \25\UTC 2012

SEXTA MILLÔRIANA

INORMAÇÕES ABSOLUTAMENTE INÚTEIS

As galinhas que engolem relógios de pulso não põem ovos na hora certa.

O espaguete, por mais comprido que seja, não pode ser usado como corda de esender roupa.

As vacas não recebem porcentagem na venda de seu leite.

Os colunistas do futuro já virão ao mundo com olho em forma de buraco de fechadura.

Não existe fábrica alguma que faça três pés de sapatos iguais para indivíduos que nasceram tripés.

O amor em absoluto não substitui uma boa conta bancária.

Pé-de-atleta é uma doença facilmente curável: cérebro de atleta é que não tem cura.

Os cavalos não apostam nos homens.

O cão é o melhor amigo do homem: o gato nem tanto.

Os egoístas vivem cheios de EUforia. Todas as outras pessoas vivem cheias dos egoístas.

Millôr Fernandes

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Pronto. Agora você já tem assunto para as conversas de mesa de bar desse fim de semana!

BUFO & SPALLANZANI – RUBEM FONSECA

Muitos elegem A Grande Arte como a obra prima do Rubem Fonseca, mas há controvérsias… Na verdade não me arrisco a eleger como o melhor apenas um livro desse gênio, pois estarei, com certeza, sendo injusto com suas outras histórias. O máximo que posso fazer é elencar horizontalmente os meus favoritos, sem ordem ou colocação. E sendo assim, sem sombra de dúvida, Bufo & Spllanzani entra nesta lista.

Esse romance do Rubem Fonseca bem que poderia ser comparado a uma matrioshka, aquelas bonequinhas russas que quando se abre uma, aparece outra dentro.  Pois, no decorrer da leitura percebemos várias pequenas histórias independentes, que se unem por meio de uma envolvente narrativa feita pelo protagonista, Ivan Canabrava ou Gustavo Flávio, como preferir.

É um romance policial que conta a história de Ivan Canabrava, um professor primário que se transforma em Gustavo Flávio, um escritor de romances policiais. Uma história que teria tudo para ser confusa se não fosse a incrível habilidade de Rubem Fonseca em escrever de certa forma que transporta o leitor para dentro do livro, tornando-o parte do enredo. Dessa forma, fica fácil perceber o que é realidade e o que é ficção.

O livro segue o tradicional formato dos romances policiais, com assassinatos, mistérios, dúvidas e só não termina com um mordomo culpado por não haver nenhum em toda história. Mas a forma como é contado, faz toda a diferença.

As personagens foram bem construídas, ficando difícil escolher uma favorita ou definir quem são os vilões ou mocinhos da história, algo bem parecido com a vida real. Fora o protagonista que já mencionei, a trama conta ainda com o detetive Guedes, inteligente e honesto, o tipo de policial que toda criança já quis ser um dia. Com Minolta, uma hippie apaixonante. Temos também o poderoso empresário Eugênio Delamare que teve sua esposa assassinada misteriosamente no início do livro, um coveiro, um casal de lésbicas, um biólogo e um sapo morto. Esses são alguns dos ingredientes que temperam as 240 páginas desse incrível romance.

Bufo & Spallanzani mostra o drama criativo vivido por um escritor, uma história que me envolveu do início ao fim em um jogo de ironias, obsessões e suaves doses de humor. O clímax criado por Rubem Fonseca ao final do livro é extremamente apreensivo, abrangendo tensão, angústia e incredulidade. Um final para quem tem colhões… Ou não.

SEXTA MILLÔRIANA

Caros leitores, já falei anteriormente que sexta-feira combina com bom humor. E como, infelizmente, não tenho talento nenhum para ser engraçado, resolvi criar uma nova série aqui no H.E. chamada “Sexta Millôriana”.

Do que se trata? Bom, significa que toda sexta-feira vou postar um texto de Millôr Fernandes, alguém realmente engraçado. Então vamos ao que interessa… Ah, se você tiver alguma sugestão de texto, pode deixar nos comentários, ok?

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A MEMÓRIA

A memória é uma coisa que serve para esquecermos o que é que nós tínhamos que fazer. Usa-se amarrá-la no dedo. E perdê-la nos enredos de fita de cinema. Quando um homem começa a senti-la fraca, vai a um médico, mas naturalmente nunca toma o remédio porque esquece de comprá-lo. Donde a incurabilidade da falta de memória. E daí a graça do diálogo clássico:

– Doutor, eu não consigo me lembrar de nada.

– Desde quando?

– Desde quando o quê, doutor?

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O XIS

O X é o egg cup do alfabeto. É o mais misterioso personagem da Matemática. Procurado ininterruptamente em todas as escolas. Odiado por todos os alunos. O X é, também, a autocrítica da datilografia.

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RELATOS DA VELHA INFÂNCIA

Recentemente uma notícia me deixou bastante chocado: o programa Castelo Rá-Tim-Bum completou dezoito anos. Muito tempo, né? Bateu uma saudade daquele tempo em que eu ficava em casa sentado no sofá assistindo TV, tomando café e comendo rosquinhas Mabel. A única preocupação que tinha era de fazer o dever de casa antes da minha mãe chegar do trabalho.

Boas lembranças que me fizeram constatar o quanto algumas coisas mudaram nesse período. O Brasil não é mais o país do futebol, a novela das oito passou a ser das nove, malhação deixou de ser na academia, passou a ser na escola e agora não é nenhum nem outro. Os desenhos fazem mais sucessos entre os adultos do que entre as crianças, Plutão não é mais considerado um planeta, a língua portuguesa foi reformada e o cara que cantava Florentina de Jesus entrou para a história do Brasil sendo, até então, o segundo deputado mais votado do país.

Mas não quero criar mais um daqueles textos saudosistas que circulam pelas redes sociais endeusando a infância dos anos noventa e desqualificando a atual. Acho que os tempos mudaram e, naturalmente, o comportamento precisou mudar também. Nem melhor e nem pior, são tempos diferentes e ponto.

No entanto, um detalhe torna a infância dos anos noventa mais interessante do que a de hoje, naquela época EU era a criança. E quando se esta nessa fase da vida tudo fica mais divertido e emocionante. Por isso quero aproveitar esse texto para lembrar algumas coisas que eu fazia e acho que as crianças de hoje em dia não fazem mais, pelo menos não com a mesma frequência.

Perdi as contas de quantas vezes sai desvirando calçados pela casa para salvar a vida da minha mãe. Lembro de uma vez que entrei em desespero ao chegar da escola e perceber que havia deixado meu chinelo com a sola voltada para cima. Joguei minha mochila para o lado e corri para salvar minha mãe. Logo depois deste ato heroico, liguei para o serviço dela para saber se estava tudo bem e fiquei aliviado ao ouvir sua voz. Triste foi descobrir que meu esforço foi em vão, pois alguns dias depois, após ter ficado de castigo coloquei todos os meus sapatos virados de cabeça para baixo e não aconteceu nada com ela. (Gente, que fique claro: eu não queria matar minha mãe, era só para dar um susto)

E como eu era destemido! Já enfrentei o Mal inúmeras vezes ao entrar no banheiro da escola, bater três vezes na porta, falar três palavrões, dar três chutes no vaso, apertar a descarga e chamar três vezes por Maria Fumaça. Meu coração batia acelerado, eu não queria estar ali, está certo que naquela época não existia o tal do bullying, porém havia a desmoralização social e eu precisava demonstrar coragem. Depois de sair correndo e gritando desesperadamente por jurar ter visto uma mulher em forma de fumaça saindo do vaso sanitário, entrava aliviado na sala, sentia o cheiro de pó de giz que impregnava o ambiente e agradecia por estar vivo.

E o que dizer sobre as várias identidades que assumia em cada brincadeira? Eu já fui o Pagliuca (goleiro da Itália na Copa de 94), o Taffarel, o Raí, o Ayrton Senna, o Presto da Caverna do Dragão, o Hyoga dos Cavaleiros do Zodíaco, o Power Ranger azul e o verde, o Chaves, o Chapolin, o Tripa Seca, o Jaspion, o Ninja Jiraya, o Indiana Jones, o Robin Hood e, um dos meus favoritos, o policial John McClane, adorava fingir que era aquele cara do filme. Bem a contragosto, também tive que ser o Dengue e o Praga, mas só para satisfazer o desejo da minha irmã mais velha que queria ser a Xuxa.

É claro que as crianças de hoje em dia ainda brincam e provavelmente daqui a dezoito anos uma delas escreverá um texto bem nostálgico também. A magia da infância sempre será a mesma. Seja com um bilboquê feito de lata de óleo ou com um pião, com uma pipa ou com quatro pedras e uma bola, com um carrinho de rolimã ou com um de controle remoto, com um videogame ou com um iPad, não importa qual será o objeto, o fato é que as crianças continuarão se divertindo e brincando. Afinal, elas ainda não precisam se preocupar com juros, desemprego, corrupção e etc.

Sinceramente, não tenho como mensurar a qualidade dos atuais programas infantis, pois não tenho tempo para acompanhá-los. O que posso dizer é que há dezoito anos surgiu na televisão brasileira um programa chamado Castelo Rá-Tim-Bum. Com um roteiro simples, mas com histórias fascinantes. Um programa que, sem dúvida, contribuiu bastante para o desenvolvimento da minha imaginação e, o mais importante, me ensinou a ser uma criança questionadora o suficiente para não aceitar apenas um “porque sim” como resposta.

AMOR MATERNO

Enquanto faziam as compras mensais para casa, a mãe se surpreende com a atitude de seu filho adolescente ao passarem pela seção de vestuário:

– O que é isso que você está colocando no carrinho, menino?

– É uma camiseta, mãe.

– Pode tirar isso daí. Não vou comprar essa coisa.

– Ah não, mãe. Por que você não vai comprar?

A mãe não responde a pergunta e continua mexendo com os cabides das calças moletons. Mas o filho não desiste:

– Ela é divertida. Eu sempre quis uma camiseta assim, é a minha cara.

– Deve ser por isso que é tão ridícula.

– Ah para com isso, mãe. Vou levar, tá?

A mãe lê em voz alta as palavras que estavam gravadas na camiseta amarela: “Dizem que o álcool mata lentamente. Ainda bem que eu não tenho pressa para morrer.”

– E desde quando você bebe, menino?

– Ah para, mãe! Eu já estou no primeiro ano do Ensino Médio.

– E já era para estar no segundo se não tivesse reprovado ano passado.

– Ah, mas eu já te falei que a culpa não foi minha. Aquele professor de Química ficou de marcação comigo.

– Ele corrigiu sua prova errado?

– Não.

– Sua prova era diferente do restante da turma?

– Também não.

-Ah tá… Então não diga que a culpa foi do seu professor! Agora explique melhor essa história de bebida.

– Mês passado, teve um dia que eu saí mais cedo da escola, então fui com os meninos para a casa do Peteca e tomamos uma caixinha de cerveja.

– Na casa de quem?

– Do Bruno, mãe. Aquele menino do terceiro ano que eu te falei que tem um carro todo tunado, lembra? É que a gente chama ele de Peteca por causa do cabelo dele.

– Ah… E onde vocês compraram cerveja? Leia mais

AQUELE QUE ILUSTRA O AMOR MATERNO

Nesses dias que precedem o Dia das Mães sempre fico pensando nas reportagens que são feitas sobre o tema. Cada uma mais emocionante do que a outra, homenageando a Mãe Coragem, a Mãe Sofredora, a Mãe Herói, a Mãe Batalhadora e por aí vai. Todo ano é sempre a mesma coisa e provavelmente nesse ano não será diferente.

O fato é que essas reportagens representam uma minúscula parcela da população de mães do país. Pelo menos em meu círculo de amizade não conheço ninguém que teve quadrigêmeos, ou tirou o filho dos trilhos do trem, ou trabalha em seis empregos para sustentar seus filhos. Acredito que a maioria das mães do país são como as que eu conheço: mães que não precisam de complemento nenhum no nome. São suficientemente mães.

“Se seu pai pudesse escolher, você acha que o filho seria você?” Ouvindo esse verso na música Se o Tempo Voltasse da banda Detrito Federal, fiquei pensando se a letra não faria mais sentido se fosse com “mãe” ou “pais”. Pois, em minha experiência como filho e também como professor que conversava com centenas de pais durante o ano letivo, a figura da mãe sempre se destacou quando se trata de aceitar as “mancadas” dos filhos.

Merecedores ou não, sempre podemos contar com o afeto de nossas mães. E para tentar ilustrar o que estou dizendo, resolvi escrever um pequeno conto que mostra o diálogo entre mãe e filho em um supermercado. Com uma escrita bem simples busquei homenagear as tantas mães, que cuidam, amam, educam e investem em seus filhos comuns, que, na maioria das vezes, não são os mais bonitos nem os mais inteligentes da turma, simplesmente são seus filhos. E apenas isso serve para justificar tamanha dedicação.

Acredite, o texto não foi baseado em você. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Acontece que a maioria desses seres conhecidos por “mãe” já passou por situações parecidas com esta.

Ah, ficou curioso pra ler o texto? Então fica acompanhando o blog para não perder a próxima postagem. Tá vendo ali do lado direito aquele botãozinho escrito “siga-me os bons“? Então, clica lá e seja feliz! Se preferir, pode seguir no twitter também.

PIADA CULTURAL

Meu sonho era ser uma pessoa engraçada. Invejo profundamente os escritores que temperam suas obras com boas pitadas de humor.

Não falo do humor explícito/escrachado. Acho que a melhor comédia é aquela que fica subentendida, disfarçada pela ironia, malícia ou até mesmo pelo próprio mau humor. E, de forma sutil, tornar cômica uma situação qualquer é algo extremamente difícil… Poucos autores conseguem percorrer esse caminho sem parar em clichês, ofensas ou, até mesmo, pobreza literária.

Nelson Rodrigues dominava bem essas técnicas sem se perder nos textos. Provavelmente entre as pessoas mais jovens ele é mais conhecido pelas minisséries da Globo, mas sua obra vai muito mais além dos reclames do plim-plim. Nelson é autor de inúmeros trabalhos, entre eles podemos destacar romances, contos, crônicas, fora as centenas de frases célebres que proferiu uma vez e são lembradas até hoje.

***

“O rico e o pobre são duas pessoas.

O soldado protege os dois.

O operário trabalha pelos três.

O cidadão paga pelos quatro.

O vagabundo come pelos cinco

O advogado rouba os seis.

O juiz condena os sete.

O médico mata os oito.

O coveiro enterra os nove.

O diabo leva os dez.

E a mulher engana os onze.”

(Nelson Rodrigues)