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O CICLISTA E O BILIONÁRIO

     

Em um lugar nem tão distante do resto do planeta, havia um belo príncipe de cabelos loiros que era dono de 650 cavalos alemães. Um jovem corajoso que, com muita dificuldade, protegia seu reino dos malfeitores.

Antagonicamente, perto dali vivia o temido Cavaleiro Negro. Um homem sombrio, que se embriagava nas tabernas obscuras de seu vilarejo e saía pelas ruas montado em seu pangaré, amedontrando todo o povoado.

Em uma noite fria, quis o destino que o jovem príncipe encontrasse com o cruel Cavaleiro Negro. Uma emboscada foi armada para capturar o herdeiro real, mas o magnificente jovem de cabelos dourados num gesto de bravura conseguiu se desvencilhar das garras do homem mau. Ao comando de sua tropa alemã, o estupendo príncipe ceifou a vida do vil cavaleiro, aproveitando também para aniquilar o esfarrapado pangaré que testemunhara todas as atrocidades que aquele ébrio homem cometera ao longo de sua existência. E todos viveram felizes para sempre. Ou não.

Infelizmente a vida real não é como uma daquelas  fábulas escritas pelos criativos irmãos Grimm. Sabemos que na realidade não existem príncipes nem cavaleiros negros, mas a semelhança com os textos infantis é a de que os nossos  julgamentos sempre terminam tendo um vilão e um mocinho. O fato é que depois do ponto final, os familiares dos dois lados continuam vivendo. Será que a fiel companheira do Cavaleiro Negro ficou eternamente feliz com o fim da história?

Eu sei que no Brasil o vilão não é caracterizado pela sua cor e o mocinho nunca vai ter cabelos loiros, pois este é um país miscigenado, onde a justiça age imparcialmente na hora de condenar e absolver as pessoas. Porém (pasmem!), existem lugares no mundo que a cor e a classe social ainda influenciam nos julgamentos de diversos crimes.

Ouvi dizer que em um desses lugares remotos teve um caso em que, após um atropelamento com vítima fatal, o carro foi retirado do local antes da perícia averiguar as causas do acidente. Dizem as más línguas que o pai do garoto que estava dirigindo era um empresário muito influente no país e pediu para que liberassem o veículo rapidamente. Parece que também neste longínquo país, algumas semanas antes deste episódio que acabei de narrar, uma pequena menina morreu antes de completar seu quarto ano de idade ao ser atropelada por um jet ski (?!) desgovernado, pilotado por uma outra criança que nem era habilitada, mas que conseguiu fugir do local a bordo de um helicóptero particular auxiliada pelos próprios pais. O que comentam a boca miúda é que o caso até hoje não foi julgado. Ainda bem que aqui no Brasil não acontece esse tipo de coisa. Nesse país as leis funcionam de forma imparcial. Moro em um lugar em que as pessoas são honestas, tementes a Deus e, por isso, jamais aceitariam situações como estas que citei. Onde já se viu não condenar alguém por matar uma menininha só porque a família se relaciona bem com alguns políticos importantes da região?

Acho que seria muito triste viver em um lugar assim. Agradeço por ser brasileiro, pois aqui tenho certeza que as leis funcionam da mesma forma para o rico e para o pobre. Exemplo disso é que hoje mesmo, durante quarenta e cinco minutos fiquei parado em um engarrafamento causado por um acidente entre um carro e uma moto. Por sorte, ninguém saiu ferido gravemente, entretanto os carros não foram retirados da pista, pois estavam esperando o juizado de trânsito chegar ao local para definir quem pagaria a franquia do seguro. Senti tanto orgulho em residir em um país onde as leis funcionam, que nem me irritei por chegar atrasado no trabalho.

Agora, sinto muito pelos cidadãos daqueles países em que o rico sempre terá mais direitos que o pobre. Onde jovens mais afortunados cometem algumas atitudes questionáveis e são blindados por uma mídia cheia de interesses comerciais camuflados, criadora de um novo Robin Hood, que é defensor dos injustiçados de Sherwood e, paradoxalmente, frequentador assíduo dos badalados castelos de Nottingham. Fico triste pelos moradores de um lugar onde as pessoas ainda são diferenciadas por cor, gênero e classe social.

E tem gente que não entende porque o Brasil é considerado o país mais feliz do mundo. Será que não sabem que aqui não existem casos que geram dúvidas quanto à idoneidade das investigações? Meus caros, no país do carnaval, a vida é bem mais divertida do que nas fábulas infantis dos Grimm. Aqui, após  ficar sabendo dessas notícias que acontecem apenas em outros lugares, nós desligamos a televisão e vivemos felizes para sempre.

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Categorias:Crônicas
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