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O TRÂNSITO E SUA BIPOLARIDADE

Giro a maçaneta que fica na porta fazendo subir o vidro da janela para abafar o som que vem de fora. Uma tentativa frustrada de enganar meu cérebro, como se os ruídos da rua fossem diretamente proporcionais ao tamanho do engarrafamento.

Nada acontece.

Olho no espelho retrovisor e vejo que o motorista do carro de trás está sorrindo e cantando uma música. Percebo que ele faz movimentos com o corpo seguindo o ritmo da música, como se estivesse dançando.

Aquilo me deixa aborrecido. Desvio meu olhar e fixo minha atenção no carro da frente.

É um carro azul, limpo e bem cuidado. Ao lado de sua placa traseira, na lataria, há um adesivo no formato de uma borboleta seguida por um rastro de rosas pequenas. Na direção do carro está uma mulher, que deve ter no máximo trinta anos. Demonstrava uma exasperação um tanto quanto ensaiada, como se houvesse a obrigação de se irritar durante o engarrafamento.

Buzinava quando o sinal estava na cor vermelha, xingava quando a outra faixa estava em movimento e dava passagem quando era a vez da nossa faixa se movimentar.

Fico mais angustiado com aquela cena . Olho para o relógio e percebo que já estou ali parado por trinta e sete minutos.

No meio das duas faixas, entre os carros, transitavam uma multidão formada por vendedores ambulantes. Um estava com um grande saco recheado com pacotes de pipoca Nhac, que na infância, era a minha preferida. Ele me oferece um daqueles saquinhos vermelhos, mas automaticamente faço um gesto de negativo com a cabeça. Eu sempre recuso as coisas quando estou irritado.

O roto pipoqueiro seguiu percorrendo o engarrafamento, ficando cada vez menor em meu retrovisor. Olho para o relógio novamente e verifico que se passaram apenas três minutos do horário anterior.

Quarenta minutos preso dentro do meu carro.

Ligo o som e sintonizo em uma rádio qualquer. Talvez ouvindo aquele locutor noticiar os fatos da cidade faria o tempo passar mais rápido.

Ledo engano.

Os carros se movimentam de novo. Engato a primeira marcha e o carro sai do lugar. Coloco a segunda e acelero esperando alcançar a velocidade ideal para encaixar a terceira, entretanto, inesperadamente preciso frear o carro novamente.

Para poder retocar a maquiagem com tranquilidade, a vaidosa motorista em minha frente deixou três carros passarem primeiro.

Respiro fundo. Mais uma vez o trânsito fica parado.

Tento manter a calma e ficar mais tranquilo. Me disseram que contar até dez ajudaria a enfrentar uma situação irritante. Como não custa nada tentar, comecei:

Um… (no carro da frente, ela passa o batom). Dois… (no carro de trás, os dedinhos tamborilam no volante e os ombros dançam no ritmo da salsa). Três… (para um carro ao meu lado com o volume no máximo). Quatro… Foda-se!

Aperto a buzina e a narcisista se assusta borrando a maquiagem. O veado do carro ao lado olha para mim e levanta o vidro rapidamente ao constatar que, obviamente, eu não estava interessado em ouvir sua música.

O cara do carro de trás continuou dançando.

Mudo a estação do rádio para me acalmar.

Meus lábios começam a acompanhar a letra, tento me distrair imaginando onde ouvi aquela música pela última vez.

Meus pensamentos são bruscamente interrompidos pelo roncar do meu estômago. Sinto fome.

Abro o porta-luvas e não encontro nada comestível ali dentro. No console, perto do câmbio, há algumas moedas. Faço um breve cálculo para estimar o valor que elas totalizam e me lembro do vendedor de pipocas.

Olho para um lado e para o outro, mas não o encontro. Durante alguns minutos, só passavam vendedores de flanelas, capas para volantes, bolas, cofres em forma de porcos e até uma raquete que servia para eletrocutar pequenos insetos, mas nada de pipoca Nhac.

Minha barriga começa a roncar mais alto. Já não identifico a música que está tocando na rádio.

Fico incomodado com o calor. Uma tensão toma conta do meu corpo.

“Cadê a porra do vendedor de pipocas?”

O relógio me informa que faz uma hora que estou parado no trânsito.

“Será que ele foi atropelado por um motoqueiro?”

O sinal fica verde, e o trânsito está fluindo bem.

Estimo que antes de chegar a minha vez haja apenas mais uma alternância de cores no sinaleiro.

Olho no retrovisor e vejo o reflexo de um homem maltrapilho carregando nos ombros um grande saco plástico cheio de pacotes vermelhos. Mesmo distante, tenho certeza de ser ele, o vendedor das minhas pipocas prediletas.

O sinal abre, demoro alguns segundos para engatar a primeira marcha, arranco lentamente e engato a segunda esperando o tempo certo do carro. Prolongo ao máximo a entrada da terceira.

Percebo que o semáforo está chegando. Reduzo a velocidade e vejo que o dançarino do carro que me segue não curte mais a música. Demonstra estar impaciente com o desempenho do meu veículo.

O sinal fica amarelo. Freio o carro e paro, afinal é preciso manter a segurança no trânsito. Na esperança que o vendedor de pipocas alcance meu automóvel.

Sou o primeiro da fila.

O carro de trás não economiza na buzina. Vejo pelo espelho retrovisor que ele faz gestos bruscos com a mão em minha direção.

Enfim o pipoqueiro aparece, ignoro a fúria do dançarino e aguardo o meu troco enquanto abro cuidadosamente o pacote vermelho.

O sinal fica verde, arranco com o carro mantendo o saco de pipocas apoiado entre as minhas pernas, seguindo em direção ao meu trabalho. Estou tranquilo, cantarolando a canção que toca no rádio enquanto saboreio o doce da felicidade nostálgica que tive na infância.

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