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VÍCIO

Sabe o que acontece com quem não se sai bem praticando nenhum tipo de esporte? Ou com quem não se encaixava nos padrões de beleza juvenil durante o período escolar? Entra para um mundo obscuro, cheio de peculiaridades e temido por todos os pais: O vício.

Comigo foi assim, nos anos noventa fui fazer um trabalho escolar na casa de um colega e após escrever algo sobre fotossíntese com um pincel atômico azul na cartolina amarela, o dono da casa – observando atentamente se sua mãe não ouvia a conversa – sugeriu para que o grupo fosse até o quarto dele para ver o que havia trazido de São Paulo. No início fiquei um pouco receoso, mas não resisti quando ele ligou aquele Master System e eu vi aquele porco-espinho azul, todo cheio de estilo, fazendo um sinal negativo com o dedo indicador de sua mão esquerda.

Foram quatro Natais e três aniversários perturbando meus pais até conseguir ganhar um, mas já era tarde. Nesse período conheci o Super Nintendo em uma locadora perto da minha casa. Não me concentrava mais nas aulas, comecei a ameaçar meus amigos para que me ensinassem a dar um chapeuzinho e arrematar de bicicleta com o Allejo no Superstar Soccer. Minha mãe descobriu o meu vício e o termo “video game” ficou proibido de ser usado dentro de casa. Frequentava bares para jogar Final Fight nos fliperamas e suportava os colegas mais chatos para poder jogar Top Gear.

Minha avó, perante a situação desesperadora em que me encontrava, me presenteou com um SNES2 comprometendo, assim, minhas noites de sono. Passaram-se algumas madrugadas até zerar Super Mário World. Depois mudei para Donkey Kong, Bomberman, Castlevania e muitos outros. Porém nada mais me saciava, já havia alugado todos os cartuchos da locadora, com exceção daquele da Barbie Super Model, afinal mesmo totalmente dependente por jogos, ainda tinha o controle das minhas faculdades mentais.

Em um determinado momento, meus amigos só falavam em um tal de Playstation, mas eu não acreditava que algo fosse capaz de superar o jogo do 007 no Nintendo 64.

Pegava os trocados da floricultura da minha mãe – sem ela saber – para sustentar meu vício. Uma simpática senhora empreendedora que fizera da garagem de sua casa, um verdadeiro salão de jogos com dez televisões e os mais diversos tipos de games, sempre me oferecia café e biscoitos. Eu já era uma espécie de cliente VIP. Mas um dia cheguei naquele estabelecimento de diversão e a “minha” mesa do Nintendo 64 estava ocupada, para o me descontentamento. Pensando em não perder seu fiel jogador, a tal senhora me ofereceu meia-hora grátis de jogo no Playstation. Foi a minha perdição.

Naquele dia fui infectado pelo vírus da Sony e não conseguia deixar de pensar como seria possível alguém criar aqueles gráficos perfeitos. Meu Deus, os dentes tortos do Ronaldinho (hoje Ronaldo Fenômeno) eram idênticos!

Embora estivesse completamente seduzido pelo Winning Eleven, queria passar para os jogos de estratégia, pois eles eram mais longos. Mas como eu não tinha nenhum Memory Card e a entrada de video games lá em casa ficou ainda mais restrita depois que a loja de flores da minha mãe inexplicavelmente faliu, não tinha como entrar nessa aventura.

Minha peregrinação atrás do tão sonhado PS durou anos, quase liguei para o Bom dia & Cia para ficar gritando desesperadamente na linha telefônica pedindo um para o Yudi, mas meu auto-respeito não permitiu. E agora depois de ter deixado o conforto da casa dos meus pais, uma das minhas primeiras atitudes soberanas foi aproveitar uma incrível promoção e comprar meu PS3. Saí da loja abraçando a caixa que abrigava o meu Playstation, correndo em câmera lenta ao ritmo de Wonderful World do Louis Armstrong.

Se entre ser um herói de  guerra e exterminar zumbis ainda conseguir arrumar tempo para fazer filhos, espero contar essa história para meus netos.

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Categorias:Crônicas Tags:,
  1. Carla
    01/03/2012 às 23:39

    E não é que seu blog está divulgável!?

    Vídeo Game = Amor.

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