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Archive for março \27\UTC 2012

NÃO CONTE A NINGUÉM

Sabe quando você era criança e sua mãe te obrigava a tomar remédio? Você apertava o nariz com o seu indicador e o polegar, fechava os olhos, fazia careta, colocava aquele líquido rosado na boca e… Gostava do sabor?! Pois então, esta foi a melhor maneira que encontrei para descrever o que senti ao ler o livro Não Conte a Ninguém do Harlan Coben. Achei que seria uma leitura cansativa, só estava em minha estante por ter sido um presente, mas quando li a dedicatória já comecei a rever meu conceito.

Esse livro não é nenhum lançamento, mas como não se popularizou aqui no Brasil, vale a pena divulgá-lo novamente, afinal histórias literárias não são perecíveis e ele ainda é encontrado em qualquer livraria por aí. Não Conte a Ninguém é o exemplo do clichê: “não julgue um livro pela capa”. Sua aparência insossa, que lembra mais um livro espiritual ou de auto-ajuda, não revela que ali dentro encontram-se palavras que montam um dos thrillers mais eletrizantes que já li. Repleto de ação, mentiras, aventuras e suspense, prato cheio para quem gosta de vilões cruéis e finais surpreendentes.

Sem dúvida David Beck é o personagem mais humano que já conheci. O fato de não ser identificado por sua profissão, já diz tudo. Ele não é um criptologista, nem um policial e muito menos um professor especializado em símbolos religiosos. Beck é um pediatra que se envolve em uma trama policial extremamente envolvente e, seguindo toda a lógica do universo, apanha mais do que soluciona problemas.

Se tivesse que resumir este livro em apenas uma frase, com certeza seria: Início intrigante, desenvolvimento angustiante e final surpreendente. Os últimos capítulos me prenderam de tal forma que, mesmo precisando acordar cedo no outro dia, passei a madrugada inteira tentando me convencer que iria ler só mais um capítulo. Estava tão envolvido que, mesmo fechando aquelas páginas, não dormiria tranquilo. Quando cheguei à última página do livro e passei pelo último ponto final, não conseguia acreditar no que li. Apaguei a luz do meu quarto, acomodei minha cabeça no travesseiro e ainda com os olhos abertos encarando a escuridão, sussurrei: “Caramba”.

Na manhã seguinte, cheguei atrasado no trabalho parecendo um zumbi de tanto sono, mas valeu a pena. Já virei fã de carteirinha do Harlan Coben e o que posso dizer é que seus outros livros são tão bons quanto este.

NOVA CATEGORIA

Criar um blog é algo extremamente viciante. Você acaba querendo escrever sobre tudo. Vivo me policiando para manter um certo padrão nos temas abordados, com o intuito de não “bagunçar” este lugar. Mas, hoje crio uma nova categoria onde vou postar dicas de livros, música e filmes. De uma maneira bem informal, buscando fugir do formato de texto padrão, com o intuito de que fique mais parecido com uma conversa do que com uma resenha.

O objetivo principal é divulgar alguns trabalhos famosos, mas que ficaram de fora da grande mídia. Eu não sei se também foi assim com vocês, mas os livros que eu mais gostei de ler foram justamente os que ficaram de fora da lista do PAS, as músicas que mais gostava de ouvir não tocavam nas rádios e os meus filmes prediletos não passavam na Tela Quente

Então aqui vocês encontrarão as minhas dicas sobre obras assim… Mas, provavelmente não resistirei por muito tempo e também vou acabar escrevendo sobre alguns trabalhos “Lado A”.

Categorias:Lado B

AQUELE QUE FALA O QUE ACONTECEU COM POLYANA

Este texto é mais um exemplo da minha busca por um final interessante. Ficava inquieto com o desejo de escrever uma história que não fosse esquecida logo depois do último ponto final. E ainda me preocupava com a ideia de não enxergar uma característica peculiar  em meus textos.

Paralelamente às angústias literárias, estava começando um novo namoro e tal qual um pavão, procurava impressionar minha companheira. Tentava ser mais engraçado, mais inteligente, mais responsável e etc (início de namoro é sempre uma farsa). Após assistir ao lado dela uma reportagem no noticiário local que falava sobre um assalto, comecei a discursar eloquentemente sobre a falta de punição para alguns criminosos no Brasil. Meus argumentos eram cheios de clichês e não havia nenhuma fundamentação jurídica.

Deu tudo errado. No lugar de impressionar com minha inteligência, acabei assustando a “humanitária mulher” que não concordava com nada que eu dizia. O debate se prolongou por vários minutos e naquela mistura de incredulidade com perplexidade, percebi que não seria com frases de efeito que a convenceria da existência de impunidade na justiça brasileira. Entre um sorriso sarcástico e outra frase irônica veio a solução: “Preciso criar uma situação verossímil que ilustre meu argumento.” Foi assim que surgiu o “Polyana”, um texto frio e seco que poderia ser facilmente confundido com as histórias dos jornais.

O fato é que este debate não serviu apenas como inspiração para um texto novo, mas também para mostrar o quanto somos inseguros e criamos algumas máscaras que camuflam nossa personalidade a fim de impressionar alguém. Depois desse dia, por não ter chegado em um denominador comum, o namoro ficou bem mais interessante e passei a admirá-la mais do que qualquer outra, pois o fato de discordar das minhas ideias indicava que tinha opinião própria.

Percebi que o debate sobre a eficácia do Sistema Judiciário Brasileiro foi inútil, pois enquanto escrevia, sentia um misto de sentimentos diversos e acabei concluindo que, em determinados casos, absolutamente nada poderia ser feito para amenizar a dor de alguém. Outro aspecto positivo deste texto é que, embora ainda não tenha alcançado meu final perfeito, comecei a desenvolver nele uma interessante característica para os meus próximos trabalhos… Quer saber qual? Simples, continue acompanhando o blog. ;-)

Ah, ficou curioso(a) para ler o texto da Polyana? Então não perca o próximo post.

Categorias:Contos

O CICLISTA E O BILIONÁRIO

     

Em um lugar nem tão distante do resto do planeta, havia um belo príncipe de cabelos loiros que era dono de 650 cavalos alemães. Um jovem corajoso que, com muita dificuldade, protegia seu reino dos malfeitores.

Antagonicamente, perto dali vivia o temido Cavaleiro Negro. Um homem sombrio, que se embriagava nas tabernas obscuras de seu vilarejo e saía pelas ruas montado em seu pangaré, amedontrando todo o povoado.

Em uma noite fria, quis o destino que o jovem príncipe encontrasse com o cruel Cavaleiro Negro. Uma emboscada foi armada para capturar o herdeiro real, mas o magnificente jovem de cabelos dourados num gesto de bravura conseguiu se desvencilhar das garras do homem mau. Ao comando de sua tropa alemã, o estupendo príncipe ceifou a vida do vil cavaleiro, aproveitando também para aniquilar o esfarrapado pangaré que testemunhara todas as atrocidades que aquele ébrio homem cometera ao longo de sua existência. E todos viveram felizes para sempre. Ou não.

Infelizmente a vida real não é como uma daquelas  fábulas escritas pelos criativos irmãos Grimm. Sabemos que na realidade não existem príncipes nem cavaleiros negros, mas a semelhança com os textos infantis é a de que os nossos  julgamentos sempre terminam tendo um vilão e um mocinho. O fato é que depois do ponto final, os familiares dos dois lados continuam vivendo. Será que a fiel companheira do Cavaleiro Negro ficou eternamente feliz com o fim da história?

Eu sei que no Brasil o vilão não é caracterizado pela sua cor e o mocinho nunca vai ter cabelos loiros, pois este é um país miscigenado, onde a justiça age imparcialmente na hora de condenar e absolver as pessoas. Porém (pasmem!), existem lugares no mundo que a cor e a classe social ainda influenciam nos julgamentos de diversos crimes.

Ouvi dizer que em um desses lugares remotos teve um caso em que, após um atropelamento com vítima fatal, o carro foi retirado do local antes da perícia averiguar as causas do acidente. Dizem as más línguas que o pai do garoto que estava dirigindo era um empresário muito influente no país e pediu para que liberassem o veículo rapidamente. Parece que também neste longínquo país, algumas semanas antes deste episódio que acabei de narrar, uma pequena menina morreu antes de completar seu quarto ano de idade ao ser atropelada por um jet ski (?!) desgovernado, pilotado por uma outra criança que nem era habilitada, mas que conseguiu fugir do local a bordo de um helicóptero particular auxiliada pelos próprios pais. O que comentam a boca miúda é que o caso até hoje não foi julgado. Ainda bem que aqui no Brasil não acontece esse tipo de coisa. Nesse país as leis funcionam de forma imparcial. Moro em um lugar em que as pessoas são honestas, tementes a Deus e, por isso, jamais aceitariam situações como estas que citei. Onde já se viu não condenar alguém por matar uma menininha só porque a família se relaciona bem com alguns políticos importantes da região?

Acho que seria muito triste viver em um lugar assim. Agradeço por ser brasileiro, pois aqui tenho certeza que as leis funcionam da mesma forma para o rico e para o pobre. Exemplo disso é que hoje mesmo, durante quarenta e cinco minutos fiquei parado em um engarrafamento causado por um acidente entre um carro e uma moto. Por sorte, ninguém saiu ferido gravemente, entretanto os carros não foram retirados da pista, pois estavam esperando o juizado de trânsito chegar ao local para definir quem pagaria a franquia do seguro. Senti tanto orgulho em residir em um país onde as leis funcionam, que nem me irritei por chegar atrasado no trabalho.

Agora, sinto muito pelos cidadãos daqueles países em que o rico sempre terá mais direitos que o pobre. Onde jovens mais afortunados cometem algumas atitudes questionáveis e são blindados por uma mídia cheia de interesses comerciais camuflados, criadora de um novo Robin Hood, que é defensor dos injustiçados de Sherwood e, paradoxalmente, frequentador assíduo dos badalados castelos de Nottingham. Fico triste pelos moradores de um lugar onde as pessoas ainda são diferenciadas por cor, gênero e classe social.

E tem gente que não entende porque o Brasil é considerado o país mais feliz do mundo. Será que não sabem que aqui não existem casos que geram dúvidas quanto à idoneidade das investigações? Meus caros, no país do carnaval, a vida é bem mais divertida do que nas fábulas infantis dos Grimm. Aqui, após  ficar sabendo dessas notícias que acontecem apenas em outros lugares, nós desligamos a televisão e vivemos felizes para sempre.

Categorias:Crônicas

O TRÂNSITO E SUA BIPOLARIDADE

Giro a maçaneta que fica na porta fazendo subir o vidro da janela para abafar o som que vem de fora. Uma tentativa frustrada de enganar meu cérebro, como se os ruídos da rua fossem diretamente proporcionais ao tamanho do engarrafamento.

Nada acontece.

Olho no espelho retrovisor e vejo que o motorista do carro de trás está sorrindo e cantando uma música. Percebo que ele faz movimentos com o corpo seguindo o ritmo da música, como se estivesse dançando.

Aquilo me deixa aborrecido. Desvio meu olhar e fixo minha atenção no carro da frente.

É um carro azul, limpo e bem cuidado. Ao lado de sua placa traseira, na lataria, há um adesivo no formato de uma borboleta seguida por um rastro de rosas pequenas. Na direção do carro está uma mulher, que deve ter no máximo trinta anos. Demonstrava uma exasperação um tanto quanto ensaiada, como se houvesse a obrigação de se irritar durante o engarrafamento.

Buzinava quando o sinal estava na cor vermelha, xingava quando a outra faixa estava em movimento e dava passagem quando era a vez da nossa faixa se movimentar.

Fico mais angustiado com aquela cena . Olho para o relógio e percebo que já estou ali parado por trinta e sete minutos.

No meio das duas faixas, entre os carros, transitavam uma multidão formada por vendedores ambulantes. Um estava com um grande saco recheado com pacotes de pipoca Nhac, que na infância, era a minha preferida. Ele me oferece um daqueles saquinhos vermelhos, mas automaticamente faço um gesto de negativo com a cabeça. Eu sempre recuso as coisas quando estou irritado.

O roto pipoqueiro seguiu percorrendo o engarrafamento, ficando cada vez menor em meu retrovisor. Olho para o relógio novamente e verifico que se passaram apenas três minutos do horário anterior.

Quarenta minutos preso dentro do meu carro.

Ligo o som e sintonizo em uma rádio qualquer. Talvez ouvindo aquele locutor noticiar os fatos da cidade faria o tempo passar mais rápido.

Ledo engano.

Os carros se movimentam de novo. Engato a primeira marcha e o carro sai do lugar. Coloco a segunda e acelero esperando alcançar a velocidade ideal para encaixar a terceira, entretanto, inesperadamente preciso frear o carro novamente.

Para poder retocar a maquiagem com tranquilidade, a vaidosa motorista em minha frente deixou três carros passarem primeiro.

Respiro fundo. Mais uma vez o trânsito fica parado.

Tento manter a calma e ficar mais tranquilo. Me disseram que contar até dez ajudaria a enfrentar uma situação irritante. Como não custa nada tentar, comecei:

Um… (no carro da frente, ela passa o batom). Dois… (no carro de trás, os dedinhos tamborilam no volante e os ombros dançam no ritmo da salsa). Três… (para um carro ao meu lado com o volume no máximo). Quatro… Foda-se!

Aperto a buzina e a narcisista se assusta borrando a maquiagem. O veado do carro ao lado olha para mim e levanta o vidro rapidamente ao constatar que, obviamente, eu não estava interessado em ouvir sua música.

O cara do carro de trás continuou dançando.

Mudo a estação do rádio para me acalmar.

Meus lábios começam a acompanhar a letra, tento me distrair imaginando onde ouvi aquela música pela última vez.

Meus pensamentos são bruscamente interrompidos pelo roncar do meu estômago. Sinto fome.

Abro o porta-luvas e não encontro nada comestível ali dentro. No console, perto do câmbio, há algumas moedas. Faço um breve cálculo para estimar o valor que elas totalizam e me lembro do vendedor de pipocas.

Olho para um lado e para o outro, mas não o encontro. Durante alguns minutos, só passavam vendedores de flanelas, capas para volantes, bolas, cofres em forma de porcos e até uma raquete que servia para eletrocutar pequenos insetos, mas nada de pipoca Nhac.

Minha barriga começa a roncar mais alto. Já não identifico a música que está tocando na rádio.

Fico incomodado com o calor. Uma tensão toma conta do meu corpo.

“Cadê a porra do vendedor de pipocas?”

O relógio me informa que faz uma hora que estou parado no trânsito.

“Será que ele foi atropelado por um motoqueiro?”

O sinal fica verde, e o trânsito está fluindo bem.

Estimo que antes de chegar a minha vez haja apenas mais uma alternância de cores no sinaleiro.

Olho no retrovisor e vejo o reflexo de um homem maltrapilho carregando nos ombros um grande saco plástico cheio de pacotes vermelhos. Mesmo distante, tenho certeza de ser ele, o vendedor das minhas pipocas prediletas.

O sinal abre, demoro alguns segundos para engatar a primeira marcha, arranco lentamente e engato a segunda esperando o tempo certo do carro. Prolongo ao máximo a entrada da terceira.

Percebo que o semáforo está chegando. Reduzo a velocidade e vejo que o dançarino do carro que me segue não curte mais a música. Demonstra estar impaciente com o desempenho do meu veículo.

O sinal fica amarelo. Freio o carro e paro, afinal é preciso manter a segurança no trânsito. Na esperança que o vendedor de pipocas alcance meu automóvel.

Sou o primeiro da fila.

O carro de trás não economiza na buzina. Vejo pelo espelho retrovisor que ele faz gestos bruscos com a mão em minha direção.

Enfim o pipoqueiro aparece, ignoro a fúria do dançarino e aguardo o meu troco enquanto abro cuidadosamente o pacote vermelho.

O sinal fica verde, arranco com o carro mantendo o saco de pipocas apoiado entre as minhas pernas, seguindo em direção ao meu trabalho. Estou tranquilo, cantarolando a canção que toca no rádio enquanto saboreio o doce da felicidade nostálgica que tive na infância.

AQUELE QUE FALA SOBRE UMA MULHER

Resolvi escrever esse texto depois de uma longa conversa com uma amiga. Em um determinado momento, alguém tocou no tema “relacionamento”. Fiquei impressionado com a visão engessada que ela tinha a respeito do assunto.

Comecei a pensar na quantidade de mulheres que levam uma vida infeliz ao lado de seu fiel companheiro. Muitas vezes abrindo mão dos próprios desejos para satisfazê-lo. Me surpreendi ao saber que em pleno século XXI ainda exista uma mulher que aceite um papel subserviente em relação ao seu marido/namorado/companheiro.

Cheguei em casa disposto a criar um conto sobre uma mulher que troca sua personalidade para se tornar sombra de seu esposo, sem nenhuma recompensa afetiva para isso.  Mas que teve um destino diferente do que o de tantas mulheres por aí. Esse texto ainda tem para mim um significado especial por simbolizar a minha primeira narrativa em 3ª pessoa.

Aproveito essa semana do famoso 8 de março para mostrar minha tentativa de ilustrar, de certa forma, a  emancipação feminina. Servindo ainda para fazer uma piada bastante sutil em relação ao comportamento de alguns homens que não mereciam ter saído das cavernas.

Aguardem o próximo post…

Categorias:Contos

VÍCIO

Sabe o que acontece com quem não se sai bem praticando nenhum tipo de esporte? Ou com quem não se encaixava nos padrões de beleza juvenil durante o período escolar? Entra para um mundo obscuro, cheio de peculiaridades e temido por todos os pais: O vício.

Comigo foi assim, nos anos noventa fui fazer um trabalho escolar na casa de um colega e após escrever algo sobre fotossíntese com um pincel atômico azul na cartolina amarela, o dono da casa – observando atentamente se sua mãe não ouvia a conversa – sugeriu para que o grupo fosse até o quarto dele para ver o que havia trazido de São Paulo. No início fiquei um pouco receoso, mas não resisti quando ele ligou aquele Master System e eu vi aquele porco-espinho azul, todo cheio de estilo, fazendo um sinal negativo com o dedo indicador de sua mão esquerda.

Foram quatro Natais e três aniversários perturbando meus pais até conseguir ganhar um, mas já era tarde. Nesse período conheci o Super Nintendo em uma locadora perto da minha casa. Não me concentrava mais nas aulas, comecei a ameaçar meus amigos para que me ensinassem a dar um chapeuzinho e arrematar de bicicleta com o Allejo no Superstar Soccer. Minha mãe descobriu o meu vício e o termo “video game” ficou proibido de ser usado dentro de casa. Frequentava bares para jogar Final Fight nos fliperamas e suportava os colegas mais chatos para poder jogar Top Gear.

Minha avó, perante a situação desesperadora em que me encontrava, me presenteou com um SNES2 comprometendo, assim, minhas noites de sono. Passaram-se algumas madrugadas até zerar Super Mário World. Depois mudei para Donkey Kong, Bomberman, Castlevania e muitos outros. Porém nada mais me saciava, já havia alugado todos os cartuchos da locadora, com exceção daquele da Barbie Super Model, afinal mesmo totalmente dependente por jogos, ainda tinha o controle das minhas faculdades mentais.

Em um determinado momento, meus amigos só falavam em um tal de Playstation, mas eu não acreditava que algo fosse capaz de superar o jogo do 007 no Nintendo 64.

Pegava os trocados da floricultura da minha mãe – sem ela saber – para sustentar meu vício. Uma simpática senhora empreendedora que fizera da garagem de sua casa, um verdadeiro salão de jogos com dez televisões e os mais diversos tipos de games, sempre me oferecia café e biscoitos. Eu já era uma espécie de cliente VIP. Mas um dia cheguei naquele estabelecimento de diversão e a “minha” mesa do Nintendo 64 estava ocupada, para o me descontentamento. Pensando em não perder seu fiel jogador, a tal senhora me ofereceu meia-hora grátis de jogo no Playstation. Foi a minha perdição.

Naquele dia fui infectado pelo vírus da Sony e não conseguia deixar de pensar como seria possível alguém criar aqueles gráficos perfeitos. Meu Deus, os dentes tortos do Ronaldinho (hoje Ronaldo Fenômeno) eram idênticos!

Embora estivesse completamente seduzido pelo Winning Eleven, queria passar para os jogos de estratégia, pois eles eram mais longos. Mas como eu não tinha nenhum Memory Card e a entrada de video games lá em casa ficou ainda mais restrita depois que a loja de flores da minha mãe inexplicavelmente faliu, não tinha como entrar nessa aventura.

Minha peregrinação atrás do tão sonhado PS durou anos, quase liguei para o Bom dia & Cia para ficar gritando desesperadamente na linha telefônica pedindo um para o Yudi, mas meu auto-respeito não permitiu. E agora depois de ter deixado o conforto da casa dos meus pais, uma das minhas primeiras atitudes soberanas foi aproveitar uma incrível promoção e comprar meu PS3. Saí da loja abraçando a caixa que abrigava o meu Playstation, correndo em câmera lenta ao ritmo de Wonderful World do Louis Armstrong.

Se entre ser um herói de  guerra e exterminar zumbis ainda conseguir arrumar tempo para fazer filhos, espero contar essa história para meus netos.

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