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O PRIMEIRO ENCONTRO

Depois de tanto tempo apenas conversando, lá estava ela falando em encontro.

Fiquei meio confuso, só conhecia aquela pessoa por um monte de letrinhas na tela do meu computador. Como será o sorriso dela? E a sua voz?

Ela disse que iria ligar para combinar tudo, será que vai ligar mesmo? Eu olhava para o celular, esperando que ele me desse alguma resposta, porém, nada aconteceu. Ele continuou imóvel, sem acender luz alguma. Acho que ela não ligará. 

No fim do dia o telefone toca, o coração dispara. Será? Atendo. A voz do outro lado da linha era desconhecida, mas não me soava de forma estranha. Era ela. Sabia que ligaria! Marcamos o encontro para o outro dia.

Naquela noite dormi muito bem. Eu me perdia em meus pensamentos. Acordei tarde. Olhei no relógio e estavam faltando algumas horas para conhecê-la pessoalmente. Tentei ficar calmo. Quer dizer, eu estava calmo. E isso me preocupava, pois eu achava que não era para estar.

Havia marcado com ela às quinze horas. Arrumei-me com calma, do mesmo jeito que fazia sempre. Molhei o rosto, escovei os dentes e esperei a hora passar.

Brasília é uma boa cidade, mas não tanto para os passageiros de ônibus.

Parece haver alguma conspiração entre os motoristas e as empresas de transporte para que descubram quem está atrasado. Isso é realmente engraçado, não sei como explicar, mas sempre quando tenho urgência para pegar um ônibus, este demora mais tempo que o normal para passar.

Não tive escolha tive que pegar uma lotação. Eu odeio esse tipo de transporte. As pessoas ficam amontoadas dentro de uma van, conversando alto e ao mesmo tempo. Uma senhora sentou ao meu lado, ela usava um perfume muito forte. Minha cabeça começou a doer.

O trânsito dessa cidade não é tão caótico, mas naquele dia não sei o que aconteceu. Houve atropelamento, engarrafamento, motorista lento e tantos outros “entos” que só me atrasavam. Olhei para o relógio. Eu já estava atrasado. Comecei a pensar se ela estava ou não no local combinado me esperando. Tentei me convencer de que ainda não estivesse quando meu telefone tocou. Ela já estava lá.

Agora, parecia que eu participava de uma maratona pelas ruas de Brasília, precisava atravessar a Avenida Hélio Prates para chegar até a parada de ônibus, mas tudo parecia formar obstáculos em minha frente. Lembrei da tal conspiração dos ônibus e dei um leve sorriso, quase imperceptível. Aquela avenida parecia estar tão movimentada como jamais havia visto. O semáforo demorava uma eternidade para apagar a luz verde, acender a luz amarela e, só então, acender a vermelha. Quando isso aconteceu atravessei aquelas duas pistas de asfalto como uma flecha. Estava chegando à parada, e o ônibus que me levaria para o local do encontro passou sem nem reduzir sua velocidade. Lá estava eu entrando em outra lotação…

Quando avistei o local marcado para nosso encontro, apertei mais os passos e comecei a andar mais depressa, como se quisesse recuperar o tempo perdido. O meu nervosismo, não era pelo encontro, mas sim pelo fato de pensar que havia uma pessoa me esperando. Não gostava dessa idéia. Tentei imaginar como ela estaria agora. Se com os braços cruzados, batendo a ponta do pé no chão, olhando periodicamente para o relógio, mas acabava no pensando o de sempre: como ela seria.

Chegando ao local, fui procurar um lugar onde eu pudesse beber um pouco de água, não sei realmente se o que sentia era sede, ou estava simplesmente tentando adiar um pouco mais aquele momento, tentando me preparar, repensando o que dizer.

E se eu não conseguisse falar nada? Se na hora travasse tudo? Se ela fosse chata? Essas perguntas e muitas outras foram dominando a minha mente, o momento do encontro estava aproximando. Será que ela me reconheceria? Afinal nunca nos vimos antes. Eu não estava nervoso. Mas queria estar. Afinal era para eu estar nervoso, pois aquele momento inicial seria fundamental para todos os posteriores e, até mesmo, para decidir futuro de nossa relação.

Chegou o momento. Em instantes teria todas as respostas para minhas perguntas. As pessoas a minha volta desapareceram, o ambiente ficou vazio e silencioso. Lá estava ela. Era como se fosse a única pessoa ali presente. Não tive como confundi-la. Parecia que eu já a conhecia há muito tempo e essa impressão iria ficar mais evidente no decorrer do nosso encontro. Não disse absolutamente nada. Fui andando na direção dela, que fez a mesma coisa, mas com um sorriso no rosto, que ficaria guardado comigo durante muito tempo. Aquele momento foi mágico, ambos calados. Antes que eu pensasse em dizer alguma coisa, ela veio me abraçar. Essa atitude me surpreendeu. Ela poderia ter feito inúmeras outras coisas, mas escolheu a mais simples e contundente.

O abraço. Símbolo de carinho, amizade, gratidão, união, e dentre tantas outras coisas, foi algo que me passou segurança e quebrou todo o gelo que me envolvia. Foi ali que ela me conquistou. Com aquele abraço sincero.

Conversamos muito, e num determinado momento, achei que estivesse conversando com uma pessoa que eu conhecesse há séculos, aquela mesma sensação que tive inicialmente. Ela estava sentada em minha frente. Não tinha como não reparar em seus olhos. Eles eram vivos e me encaravam com ternura e firmeza. Havia uma pintinha em seu nariz, talvez fosse uma feridinha. Mas nada que tirasse seu encanto. Ao contrário, parecia lhe dar mais um charme. No início, ela estava falando alguma coisa, mas eu não prestei muita atenção. Estava reparando que ela ria toda vez que dizia algo. Um sorriso muito bonito, que como fui descobrir mais tarde, por ela mesma, era um riso para dentro. Jamais tinha ouvido essa expressão antes, mas também nunca tinha visto um sorriso daquele.

O tempo passou rápido, quando percebi já estava escuro. Por mim ficaria conversando ali por muito mais tempo, mas achei mais prudente que fossemos logo embora. E ela concordou.

Estávamos esperando o ônibus que ela iria pegar. E uma sensação estranha ia tomando conta de mim. Sentia uma alegria imensa por aquele dia, mas também uma angústia porque ele estava chegando ao fim.

Como no encontro, a despedida também veio em forma de abraço, mas este tinha um novo significado. Eu não queria abrir mais os meus braços e soltá-la. A idéia de que tudo voltaria ao normal quando ela fosse embora, me deixava aflito. Aquelas horas foram tão boas, mas agora haviam acabado. Abri os braços e a soltei. Lá estava ela indo embora dentro daquele ônibus.

Estava voltando para casa, e agora com novas perguntas na cabeça. Que dia vou vê-la de novo? Será que podia ter dito algo que não disse? O que será que ela está pensando agora? Mas eu não queria resposta para nenhuma delas. Na verdade só havia uma coisa que eu queria naquele momento. Era sentir aquele abraço, ouvir aquele sorriso e ver aqueles olhos novamente.

Depois daquele dia, as coisas voltaram a ser como eram. Mas eu não era mais o mesmo, havia um novo lugar em minha mente. Um lugar reservado para aquela garota singular, aquela menina sorridente cuja companhia me fazia bem. Um lugar guardado só para ela.

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